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Mostrando postagens de 2014

MANHÃ

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar.

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão.

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


(1979)




............................ # Poema constante de RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009) # Originalmente, postado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)
│Autor: Mia Couto│ ____________________________

POEMA DE AMOR

O Céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.


.......................... # Poema constante de POESIA REUNIDA [(1967-2000) Pub. D.Quixote, 2000)] # Originalmente, publicado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)
│Autor: Nuno Júdice│ _____________________

TAL A UMA ÁRVORE MORTA DE PÉ

“O tolo cruza as suas mãos, e come a sua própria carne.” - Eclesiastes 4:5



São tantas as vozes, mas não lhes há esteio, exceto por suas próprias sequelas, ramos ardidos que noutros se repetem, fastios de cães na noite infinda.
Pedem água e justiça; choram por leis às quais apregoam bálsamo do mundo,                                      se bem que não. São elas mesmas toda a mesmice que se consegue à força do hábito.
São tantas as vozes, mas uma voz só, o canto de um bicho que se perdeu, como a aborrecida beleza de um osso ou tal a uma árvore morta de pé.


│Autor: Webston Moura│ ____________________________

COISA AMAR

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar. Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói
desembarcar nas ilhas misteriosas. Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
(1976)

........................ # Poema constante deCoisas do Mar(Perspectivas e Realidades; Lisboa, 1976) # Poema replicado da página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)

│Autor: Manuel Alegre│ ___________________________

Visão

A montanha escondida sob  a névoa. A neblina fecha a vista. Reviso a matéria ainda pulsante.
Memorizo igualitariamente o sucesso e o fracasso.
Do sucesso estudo o início. Do fracasso conservo a névoa toldada na visão do artista.


........................ * Poema constante de Iguais: poemas (Projeto Passo Fundo; 2013) - Clique (AQUI).
_______________ * Pedro Du Bois [Passo Fundo-RS, Brasil] - Poeta, contista, autor de Iguais (poemas), O senhor das estátuas (poemas), Os objetos e as coisas (poemas) Pedro Du Bois Em Contos (contos). Participa do Projeto Passo Fundo (http://www.projetopassofundo.com.br/), é membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores de Piracicaba. Mantém o blog Pedro Du Bois - Poemas (http://pedrodubois.blogspot.com.br/) e reside atualmente em Balneário Camboriu-SC, Brasil. _________________

MANHÃ

É um pequeno milagre, esta claridade. Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.
Agora é de um azul sem mácula, o céu; a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz — rasa, rosa, crua — já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

.......................... * Poema constante de LUZ INDECISA (Oceanos, 2010). * Post replicado da página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)
│Autor: José Mário da Silva│ _______________________________

Inexistência

Busco no calendário o inexistente e escuto o vento rodear a casa. Empunho a arma doutrinária da elasticidade com que distâncias se fecham em notícias. O dia anunciado no regredir do ano. A estrela apanhada em rituais. Uno a finalização dos destinos e do interior da casa escuto a ordem de retorno. O vento cessa a busca por enquanto.



│Autor: Pedro Du Bois│ _________________ # Poema constante de Iguais (Projeto Passo Fundo, 2013)
_______________ * Pedro Du Bois [Passo Fundo-RS, Brasil] - Poeta, contista, autor de Iguais (poemas), O senhor das estátuas(poemas), Os objetos e as coisas (poemas) Pedro Du Bois Em Contos (contos). Participa do Projeto Passo Fundo (http://www.projetopassofundo.com.br/), é membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores de Piracicaba. Mantém o blog Pedro Du Bois - Poemas(http://pedrodubois.blogspot.com.br/) e reside atualmente em Balneário Camboriu-SC, Brasil. _______________________

BREVE MAPA DE UMA TERÇA-FEIRA

nenhuma data rezinga na solidão de agora, exceto a que, tarde de chuva e barcos de papel, pronuncia o menino que fui e que em mim continua.

 (o amarelo das fotos me tinge)

lá fora, um inchaço a que chamamos cidade:                 caminhos e labirintos; dinheiro.
sob esta goiabeira, a sol resistida, com um arisco azulão a saltar, sou remorso quase alegre, quase melancólico, e penso: é preciso deflagrar o bálsamo.



│Autor: Webston Moura│ ............................ NOTA: I. Os versos em negrito e itálico constam, respectivamente, dos meus poemas "Alma de lacrau",  "Cascas do sono" e "Bálsamo violento" (Encontros imprecisos: insinuações poéticas; 2016)
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[É por ti que se enchem os rios]

É por ti que se enchem os rios de carpas azuis, de águas que querem saltar pela minha janela. Como é belo este silêncio ilimitado quando nas copas redondas das árvores o teu nome me chama. Pedi-te que apagasses a lua e que nos campos tacteando te encontrasse. Sei-te na aurora, por isso não temo e agora a lanterna dos dias pode por fim ficar em ventos de abraços. Voam aves dentro dos teus sonhos como memórias de pétalas acordadas. Ficas ancorado dentro do meu tempo. Não há saudade nem solidão que se não derrube.





│Autora: Lília Tavares│
.......................... # Poema constante de PARTO COM OS VENTOS, Prefácio de Carlos Eduardo Leal, Ilustrações a partir de esculturas de arame, por Simone Grecco (Kreamus, 2013)
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Lília Tavares (1961)é psicóloga clínica, há 24 anos a trabalhar na reabilitação de jovens e adultos. Casada e mãe de dois filhos, frestas de luz que a vida lhe deu. Unida à Poesia desde os treze anos, publicou em 1979 Fusão Crepuscular e outros Poemas em edição de autor. Partici…

As Mãos

Sabe o que está escrito na sua mão? Orides Fontela responde: “Leio / minha mão / único livro”.
Os poetas dentro do processo criativo contextualizam “as mãos” como desafio, desenvolvendo um olhar afetuoso e captando a essência atemporal da palavra, com a finalidade de desvendar esse poder absoluto que as mãos exercem sobre nós. Nas palavras de Jorge Tufic, “Para / Fernando Pessoa / os símbolos / não são você / nem ninguém. / São a noite interna / a dormir acordado. / Símbolos. / As mãos, por exemplo: / Quem são elas?”
As mãos constituem a individualidade no sentido da existência e, ao as vivenciarmos, encontramos os gestos declarados: mãos que guardam o tempo, mãos frias e quentes, mãos estendidas e recolhidas, mãos que arremessame acenam, mãos que ajudam, mãos para trás negando o contato e renegando o gesto, mãos carinhosas e amigas, as mãos do carrasco, mãos lidas pelas ciganas, mãos calejadas, mãos trêmulas e a Mão Única, de Orides Fontela: “é proibido / voltar atrás / e chorar.”
As mã…

ENQUANTO OLHAVA AS MARGARIDAS

ressentia a meninez dos inícios imberbes,
                          mas o tempo já lhe havia passado.
seu rosto, um mapa antigo, refolhos; seus olhos, o  quão podiam, luz ensombrada; suas mãos, cronologia de léguas.
domingo, estava só no beiral sentindo refluências, e o mundo, tarefa indomável, lhe doía como uma chaga sempre aberta e disposta.
á sua frente, ao chão, sem acídia, a natureza de infatigáveis margaridas, suas vozes brancas.
consigo e contrito, embora leve, descosturava ali as palavras desmesuradas                                                        estômago adentro.
era homem e era só, assim de se considerar somenos.


│Autor: Webston Moura│

______________________ NOTA: 1.Os versos em negrito e itálico constam de meu poema "Beiral" (Encontros Imprecisos: insinuações poéticas; Imprece, 2006)
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a vida passa

chorar em etrusco ou na varanda, porque em mim já não caibo.
é fim de tarde: na rua, passam, lentamente, umas senhoras, suas dores (quase) amansadas,                    dores que se convertem em diabetes                                                             e hipertensão e o mais que os seus silêncios de mães não pronunciam senão por olhares cabisbaixos.
levam seus rosários; vão à missa. eu as vejo com meus olhos já envelhecendo; eu, que inda agora era jovem e supunha mudar o mundo, quando sequer arranhei o muro, exceto por umas insinuações poéticas.
(no alto céu, a noite a cair num cinza-azulado em que o íntimo extasia a estrela e o pudor.)
noutro tempo, longe, plangem violões uma serenata: escuto um nome ― maria ―, talvez aquela que, no futuro, reclinada sobre o corpo do filho, nem mais se lembre de flor e vênus, posto haver-lhe apenas sangue nas mãos,                                                    sal não-bendito e vermelho, todo forte.
adentro a casa em que moro, vou à cozinha e sorvo uma dose de…

INSANO

Retira pequenas felpas da toalha sobre o corpo seco, restos de tecido,
água destecida no esgarçamento
da toalha; partes da pele no esfregar
do pano; anos passados: corpos dilacerados
sobre trilhos, entre trilhos. Nas explosões
sobram partes, não felpas, corpos em mortalhas
desproporcionadas na tragédia; a loucura
                                        - sim, outro dia perdido -
esfrega no corpo a raiva percorrida; a toalha
sobra no corpo restos de tecido; destecido
e fragmentado na lembrança do inteiro corpo.


│Autor: Pedro Du Bois│ ..................................................... # Leia também: - ENTARDECER (Pedro Du Bois) - Roteiro para apartar escuridões (Whisner Fraga) - O CORPO PARADOXAL (Dércio Braúna) - Sobre águas (Pedro Du Bois) - Reinícios (Pedro Du Bois) - Perguntas sobre o amor (Tânia Du Bois) - O Tempo de Iluminadas Palavras (Tânia Du Bois) - Palavras (mal) ditas (Tânia Du Bois)
________________ * Pedro Du Bois [Passo Fundo-RS, Brasil] - Poeta, contista, autor de Iguais (poemas),