domingo, 4 de outubro de 2026

O Que é a Vida?



Birch Trees (1911)
- Abraham Manievich


Agora que os anos lhe consumiram a energia do corpo, Maria está cada vez mais pensativa. Sentada em sua cadeira de balanço, a casa vazia de filhos, o marido falecido há anos, ela se sente só. Seus sonhos, os mais ousados, nunca puderam ser. Como secretos amores, todos platônicos e cuidadosamente escondidos do pensar de outrem. Não foi propriamente infeliz. Nem é. Não lhe há marca de ingratidão no coração, tampouco grande remorso. Sua vida fora até aqui adequada, sem maiores dramas. Porém, agora, sentada em sua acostumada cadeira, Maria percebe como o dia-a-dia nos distrai, negando a vida, a vida como coragem ardente, acontecimento mágico. Pergunta-se, então, o que é a vida. O que é?




|Autor: Webston Moura|

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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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Tocar O Infinito



Meninos Soltando Pipas (1952)
- Cândido Portinari


As crianças correm  de um lado para o outro na rua de terra. Empinam suas arraias de cores variadas sob o céu azul de verão. Como quem tem todo o tempo do mundo e o futuro desimpedido, brincam, riem, gritam, alegram-se.

Otoniel observa. De sua calçada, só, de sandália e bermuda, sorri. Por um instante, sente-se novamente criança e lembra que também teve seus dias de inocência. Não lamenta, obviamente. Em nome do azul daquela arraia mais alta que o faz tocar o infinito, estrangula, docemente, aquela lágrima que rolaria por sua face. E sabe que a vida é esse agridoce de ganhar e perder enquanto o tempo costura sua trança de mistérios.




|Autor: Webston Moura|

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Pesar de Jurandir



Composition (1961) - Carl Buchheister



Quando morreu, Jurandir carregava algumas mortes nas costas. Mas nunca foram por querer ou por alguma razão mesquinha. Ele defendia a sua vida e a vida dos seus naquele sertão antigo. Todavia, não se orgulhava de ter matado. Doía-lhe a alma tal coisa, como chegou a dizer aos parentes e amigos.

Três meses depois de ser sepultado, nasceu sobre sua cova uma planta de pequeno porte, com folhas diferentes, planta nunca vista até ali por quem quer que conhecesse o assunto. E um detalhe chamou a atenção das pessoas: a planta derramava lágrimas, como se chorasse, como se Jurandir ali dissesse de sua dor, dor que levou para além desta vida, mas que aqui ainda se manifestava, transbordando.




|Autor: Webston Moura|

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Jardineiro e as Borboletas



Borboletas - Odilon Redon



— Por aí não!
— Por quê?
— Porque tem um camaleão lá na frente.
— Nossa! É mesmo.

Cidinha é um borboleta esperta. Laurinha a escuta. E as duas se salvam do camaleão. À noite as duas somem. Para onde vão? Não sei, não entendo muito dessa parte.

Os dias se passam até chegar aquela manhã em que não as encontro. Chega à tarde e nada delas. Passa-se o dia inteiro. Acabou.

Quantas despedidas já viveu este jardineiro que vos fala? Muitas. Mas se há despedidas, digo que, antes, houve vida e encontro. E isso é tudo.





|Autor: Webston Moura|

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O Último Instante da Esperança



The false mirror (1928) - Rene Magritte



Não fui eu! E mais não sei dizer!

Ouviu-se isto, para, em seguida, ficarem os olhares a se perscrutarem, mutuamente, numa investigação cismada e sem certeza de que chegaria a um resultado. Ali, dada a circunstância, já era o julgamento de Ari. De seu rosto corria um suor grosso, quente, como se estivesse vindo do fundo de sua alma. Agora, em silêncio, esperava, mas não tinha esperança.



|Autor: Webston Moura|

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