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05 janeiro 2019

ESTAR AÍ


Ser aquele pássaro,
longe,
desperto,
volteando no céu.

Ser a nuvem,
raios do crepúsculo,
noite que se chega.

Na madrugada,
a tempestade,
cavalos correndo na liberdade.

Estar aí,
sem motivos,
orvalho calmo
sobre novos e antigos.


│Autor: Webston Moura│

23 dezembro 2018

ESSES DIAS DE CALOR


Esses dias de calor
com que lidamos,
a contragosto.
As horas consumidas
em sobreviver
enquanto a noite se guarda
detrás dos ocultos.

Dado isso,
não se estranhe
a exaustão
em nossos gestos,
as falas guardadas
atrás da imagem,
os olhares aguados
aos quais nos damos
e a vontade de fugir
para reinos inventados.


│Autor: Webston Moura│

22 dezembro 2018

À HORA DESERTA


Dada a pressa que julgamos necessitar,
nem nos vemos senão nesse não-sentir.

E nos acostumamos.

Por isso,
à hora deserta,
com a rua deserta,
dá-me vontade de correr
como quem, nascendo,
sabe um rio nalgum lugar
fora deste corpo excessivamente funcional.

Por isso,
a dança,
a anti-destreza,
o andar como vagar,
o sair-por-aí
que, à hora deserta,
me tomam,
ao menos imaginadamente.

Dada a pressa que julgamos necessitar,
perdemos os ciclos das coisas que vivem de graça
e só nos vemos nesse não-sentir
dentro deste corpo excessivamente funcional.

│Autor: Webston Moura│

ESTA MÚSICA


Escuto esta música
e me retiro.
Sei: estou aqui
(contudo, não estou).
É meu sentimento
que por aí vai,
notas harmonizadas
nalguma máquina feliz
por sobre uma montanha
e com espírito de pássaro,
águas mais adiante.

Não há palavras exatas
para dizer disto.
Por isso, paro;
escuto esta música
e me retiro.


│Autor: Webston Moura│

O PESCADOR ANÔNIMO


Vai-se o sol forte; a tarde é áspera.
Na lagoa suja de progresso urbano
o homem simples pesca os peixes impróprios.
Sorri ao aceno, é simples sua índole.
Ali já está desde velhos tempos
quando havia água que se punha pura.
Resta-lhe, agora, como sorte última,
ir-se com a lagoa ao cabo das forças,
esquina final donde não se volta.
Por ora, se apega à pesca de agora,
neste dia pleno de rotina e fome.


│Autor: Webston Moura│

PEDREIROS


Ardem sob o sol mais inclemente
enquanto erguem paredes cujo fim não lhes servirá.
Não têm e não terão casas suas,
que a sorte de serem o que são,
pedreiros,
tem esta contradição:
vestir a nudez alheia enquanto sobram nus,
seja de casa, de melhor comida ou de futuros leves.


│Autor: Webston Moura│

20 dezembro 2018

MURMURANDO


Essa revolta concentrada há anos,
pedra escondida sob a aparência da normalidade.










E a vergonha de não vivê-la,
                         de não dizê-la,
                         de não fazê-la,
que só de confessa assim a miúdo
              e sob sigilo,
murmurando,
                                    murmurando,
                                    murmurando.


│Autor: Webston Moura│