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BORBOLETA

O que me desorganiza, é esta borboleta. Não é outra, semelhante, mas esta, uma borboleta estranha e, como todas, paciente, capaz de estacionar, imóvel, de parar o espaço que ocupa, de hipnotizar o ar em redor e ocultar a duração do tempo.
Não há néctar nas cortinas, nem nos móveis, tampouco nos livros. Assim, por que ela não some?
O azul de suas asas, forte e denso, é pétreo. Nunca o vi, sequer o imaginei.
Noutro tempo, havia candeeiros, muitos, como num enxame, luzes infinititas. Peixes deslizavam no ar, luziam cores ácidas. Loreena McKennitt cantava “Stolen Child”. E não havia esta borboleta ─ que incide e subleva, sem dar clareza dos porquês.

│Autor: Webston Moura│

MAIS

Não nos damos exatamente pelo mistério das coisas, que é apurar os olhos sobre o invisível.
Oculta, a vida é mais.
Sequer nos vemos senão como essas unidades de produzir e sofrer, de repetir os olhos e repisar a paisagem.
Mas, oculta, a vida é mais.

│Autor: Webston Moura│

LUGARES DE SER

Eu quero ser como a Rita Lee, um lírio forte, uma pedra meiga, uma cadeira na calçada do anteontem.
Eu quero o aroma da manga desfazendo aflições e angústias.
Eu vi um Zepelim indelével compondo a formosura do azul.
Eu quero a cachoeira secreta de águas lídimas, onde nenhum ruído desagradável tome posse.
Eu quero palavras-vazios, lugares-de-ser.
E quero poder jardins em meu coração.

│Autor: Webston Moura│

GRAÇA

É assim mesmo, gratuitamente. Andar sem rumo, devagar, cidade ir, ruas e ruas. É assim, sem um grande plano, sem uma terra a conquistar. Se chover, não se corre, que a chuva desliga o tempo.
Ah, o tempo, o cão e o portão, o crachá, a burocracia! Não! Não é deste tempo rijo que precisamos. É daquele outro, daquele dito fruição.
Fruição: 1.Usufruir de goiabas no pé e do verde nos olhos de quem der; 2.Ouvir, sem afobamento, “Dr. Joe”, com Chick Corea, John Patitucci e Antonio Sanchez; 3. Sonhar com Maria Casadevall.
É assim, e não pense, que pensar dá pregos. Andar sem rumo, devagar, cidade ir, ruas e ruas. Se chover, seja tão despossuído quanto um mendigo
ou um poeta.

│Autor: Webston Moura│

A SAUDADE-DÓ DA ASA PERDIDA

A ave, livre, voa e vê o que não vemos, sente o que não sentimos, vive sua singularidade.
Armadilhamos sua vida em gaiolas bem cuidadas, damos-lhe de comer e de beber e lhe exigimos um canto.
Presa, ela canta o que nossa prisão íntima supõe ser alegria. Ela canta ─ bem nos disse um bruxo ─ a saudade-dó.
E o que fazemos com o canto-cárcere que não poderíamos fazer com o voo-dádiva? Sabe-se lá! Ou, de outro modo, sabe-se, sim:                              fazemos mando presunçoso, pois desaprendemos nossas próprias asas. E nosso canto é farto dó e demasia de exílio.

│Autor: Webston Moura│

ÍMPAR

Você, nua, parece um Range Rover, parece um leão farto sobre nuvens, parece uma inscrição encontrada nos Pireneus, parece aquele carnaval de 1976, parece o olhar de um gnu, parece a Ursula Andres num siso ordenador.
Você, nua, paralisa o silêncio em seu zênite e agrupa meu sangue na densidade mais elétrica.
Você é um solo do Jimmy Page contra as horas-não.

│Autor: Webston Moura│