sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Pesar de Jurandir



Composition (1961) - Carl Buchheister



Quando morreu, Jurandir carregava algumas mortes nas costas. Mas nunca foram por querer ou por alguma razão mesquinha. Ele defendia a sua vida e a vida dos seus naquele sertão antigo. Todavia, não se orgulhava de ter matado. Doía-lhe a alma tal coisa, como chegou a dizer aos parentes e amigos.

Três meses depois de ser sepultado, nasceu sobre sua cova uma planta de pequeno porte, com folhas diferentes, planta nunca vista até ali por quem quer que conhecesse o assunto. E um detalhe chamou a atenção das pessoas: a planta derramava lágrimas, como se chorasse, como se Jurandir ali dissesse de sua dor, dor que levou para além desta vida, mas que aqui ainda se manifestava, transbordando.




|Autor: Webston Moura|

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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Jardineiro e as Borboletas



Borboletas - Odilon Redon



— Por aí não!
— Por quê?
— Porque tem um camaleão lá na frente.
— Nossa! É mesmo.

Cidinha é um borboleta esperta. Laurinha a escuta. E as duas se salvam do camaleão. À noite as duas somem. Para onde vão? Não sei, não entendo muito dessa parte.

Os dias se passam até chegar aquela manhã em que não as encontro. Chega à tarde e nada delas. Passa-se o dia inteiro. Acabou.

Quantas despedidas já viveu este jardineiro que vos fala? Muitas. Mas se há despedidas, digo que, antes, houve vida e encontro. E isso é tudo.





|Autor: Webston Moura|

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O Último Instante da Esperança



The false mirror (1928) - Rene Magritte



Não fui eu! E mais não sei dizer!

Ouviu-se isto, para, em seguida, ficarem os olhares a se perscrutarem, mutuamente, numa investigação cismada e sem certeza de que chegaria a um resultado. Ali, dada a circunstância, já era o julgamento de Ari. De seu rosto corria um suor grosso, quente, como se estivesse vindo do fundo de sua alma. Agora, em silêncio, esperava, mas não tinha esperança.



|Autor: Webston Moura|

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A Aridez do Medo



Man and Woman I (1905) - Edvard Munch



Eu nunca lhe disse nada. Nunca lhe dirigi palavra. Anos e anos, ela passa aqui em frente, mas não tenho coragem. Acompanhei seus romances, começo, meio e fim. Participei deles, estranhamente. Sentia assim. E quantas vezes, na prudência dos lábios, longe dos outros, pronunciei seu nome: Suzana! E isso, esse nome em minha boca e sua imagem passando na rua são as únicas coisas "dela" de que me apossei. Mais nada. Semeio o que sinto na aridez do medo.



|Autor: Webston Moura|

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Uma Refeição



Duas leoas matando e comendo javali na savana
(Imagem de Depositphotos)



O javali grita, as mordidas que arrancam a sua carne o deixam totalmente em desespero. As duas leoas seguem, seus focinhos se encharcam de sangue, suas garras seguram a presa. Depois de dias tentando, agora deu certo. A fome é um imperativo, não um capricho.

O javali respira ofegante, de algum modo sabe que não haverá socorro, é a vida naquele ambiente. Completos de lágrima, seus olhos veem, pela última vez, o céu. E tudo é apenas uma refeição. No mesmo ato a vida e a morte.



|Autor: Webston Moura|

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A Excessiva Preocupação Com a Própria Imagem



O Constrangimento (1914) - Francis Picabia



Moro numa avenida, que é uma via com duas mãos, uma de ir, outra de vir, e um canteiro separando as duas. Como todo mundo que aqui moro, coloco os sacos de lixo no canteiro, aonde o carro da coleta pega e leva. E isso acontece não apenas nesta avenida em que moro, mas noutras.

Ocorre que, há tempos, moradores de ruas adjacentes vêm com seu lixo e jogam no canteiro desta avenida em que moro. Os educados fazem assim, pois os piores jogam até na rua mesmo. Evitam, então, colocar os sacos defronte sua casas, aonde certamente o carro da coleta também os recolheria.