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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Boas Festas!




Nativity of Christ (1523)
- Lorenzo Lotto



Acho que eu tinha uns quatro anos de idade. Minha família morava na zona rural. Em certa noite, deram de me vestir uma calça marrom, de botões, e me puseram também uma camisa. Fiquei todo formal. Sapatos, claro, que naquela época as crianças usavam sapatinhos marrons de cadarços. E aí fomos de carro até a cidade para a casa de minha avó materna.

Para mim, era uma mistura de novidade e tumulto. Por que me retiraram de meu quieto mundo, à noite, para uma viagem à cidade?

domingo, 22 de dezembro de 2024

Envelhecer



Old Man in Warnemunde (1907)
- Edvard Munch



Você está ficando velho, diz alguém. É como se dissesse que você está ficando fraco e falho. Não seria mais certo dizer que, com a idade - o tempo -, você está ficando maduro?

Numa sociedade aonde e pujança é reduzida ao vigor físico, à aparência, envelhecer é perder a credibilidade.

Deve ser assim mesmo?

Envelhecer é ganhar o jogo, afinal a vida tem sua dureza, e ir adiante, avançar anos, é superar obstáculos. Para tanto, virtude e luta, além, obviamente, de condições dignas.

Envelhecer não á apenas enrugar-se e andar mais devagar, mas olhar mais devagar, como quem exerce atenção e compaixão, nobrezas do ser humano.

Nenhuma fase é intrinsecamente ruim ou triste, tampouco deve ser vista como estranha. Em nós, nos bichos, nas árvores, nas rochas, aonde for, envelhecer é bom e precisa ser dito assim, para que nos humanizemos.

Ah, mas eu não queria! Sim, há em nós um sabor de eternidade e juventude que gostaríamos que fosse já aqui nesta vida. Mas não é assim. A natureza tem sua própria maneira de fazer as coisas, não nos cabendo roubar-lhe o protagonismo. Sejamos humildes!

E sejamos felizes tanto quanto pacientes e sábios.



|Autor: Webston Moura|

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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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domingo, 29 de setembro de 2024

Nosso Espaço Interior e os Desejos




Espaços Interiores (1989) - Charles Bezie



Em geral, pensamos que o nosso interior é apenas o espaço dos desejos, que ele só produz isso, além de alguma dor. E que, satisfazendo-os, nós nos realizamos. Porém, o que mais experimentamos, a vida inteira, é a frustração diante das tantas tentativas que encontram pela frente obstáculos intransponíveis. Alguns desejos encontram seu caminho e seu objetivo, chegando à realização. A maioria, não.

Assim sendo, se considerarmos que o máximo de nós são os desejos, teremos de concordar com a verdade de que somos imensamente falhos, como um projeto que, desde o início, existe para dar errado mesmo afinal o enredo de ilusões e quedas é tal que até parece que somos um tipo de ser que não funciona. Concorda?

sábado, 28 de setembro de 2024

Nós e a Política





Muito se gasta nas campanhas eleitorais. Mas, a bem da verdade, o meio político é, o tempo inteiro, uma orgia de dinheiro pra lá e pra cá. Orgia que alegra, enlouquecidamente, aos participantes, comumente homens.

O que geralmente dizem, sobre se importarem com as pessoas, isso é apenas o jogo de cena que a política oficial requer. É uma farsa, um teatro. E todos sabemos disso há tempos. E também sabemos que, em qualquer época, o poder tem disso: uma luta rica, cheia de recursos materiais e ambição desmedida, aonde egos se digladiam, para ver quem vence. A realidade que se dane.

domingo, 8 de setembro de 2024

Nem Tudo Faz Sentido



G-1 (1985) - Emil Schumacher


Há quem não goste desse tipo de arte. Refiro-me à pintura que você vê aí na postagem,  a tela G-1, de Emil Schumacher. Eu digo o contrário, digo que gosto, pois gosto tanto do que é figurativo como de outras formas, o que inclui esta maneira de pintar, que se chama Taquismo.

Ah, mas o que ela quer dizer? Não sei. Isso fica por conta dos estudiosos, de quem vai atrás. A mim, como pessoa que simplesmente se emociona, basta-me a comoção, o encantamento.

sábado, 7 de setembro de 2024

Infância e Futebol



Futebol - Mario Zanini


Não era bem meu interesse fazer aquilo. Desde que me entendo por gente, sou assim um tanto desligado, mais pensativo que prático. Mas ali estava eu, manhã já findando, os meninos jogando, a bola correndo.

Ficamos, uns poucos, depois que a aula acabou. Era o horário da manhã. A escola, que era grande, com espaço de sobra, era também agradável. E permitia que ficássemos, ainda que fosse além do horário. Se não sempre, mas aqui e ali, permitia.

domingo, 18 de agosto de 2024

A Solidão



Loneliness (1927) - Carlos Saenz de Tejada



Diz a banda Engenheiros do Hawaii, na música "Nau a Deriva": "Meu coração é um porta aviões / Perdido no mar, esperando alguém chegar / Meu coração é um porto sem endereço certo / É um deserto em frente ao mar".

É a solidão. E, neste caso, a solidão de alguém que se diz à deriva, perdido, desconectado dos outros ou, quem sabe, e mais especialmente, necessitado de alguém como uma namorada. Ou um bom amigo, simplesmente.

O poeta Vinícius de Moraes, no texto "Da Solidão", diz: "A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana."

terça-feira, 6 de agosto de 2024

As Tão Presentes Coisas Invisíveis



Sunday (1926) - Edward Hopper


Edward Hopper fez pinturas como esta que você vê acima. E o título, "Domingo", sugere aí folga e tédio, possivelmente, também, cansaço. Vê-se apenas um homem sentado na calçada, perto do meio-fio, com uma atitude tristonha, parada. Excetuando-se a presença dele, a rua está deserta, sem passantes.

As cores, como em outras pinturas do artista, são claras, objetivas, unindo, simultaneamente, um realismo a algo artificial, como percebemos bem, já que não é uma foto, mas uma pintura, óleo sobre tela, isto fica claro, apesar do realismo da expressão.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Jean Yves Leloup em "A Elegância do Eu"






"O homem nobre" habita como um poeta na Terra, ou seja, ele vê todas as coisas na sua intensidade, transparência e plenitude, não vive num mundo de objetos e sim num mundo de presenças, ele vê tudo o que é invisível no visível e tudo o que é visível no invisível. O visível é invisível, o invisível é visível, estes não são paradoxos fáceis, mas afirmações do mundo como teopany, revelação ou revelação (parousy).

Sem se afastar das aparências, o nobre ou poeta contempla a aparência.

É esta, a beleza que "salva" o mundo, ou seja, que o amplia, faz com que "respire largo", substitui-o no invisível, de fato a testemunha carnal do Infinito.

Se, como Dostoiévski afirma, "é a beleza que salvará o mundo", devemos perguntar-nos imediatamente "quem salvará a beleza"? Essa é a questão. Enquanto houver mulheres e homens capazes de se maravilhar e assombro, a beleza sobreviverá.

quinta-feira, 14 de março de 2024

O Futuro de Tudo (3)




A linguagem empobrecida, empobreceu o pensamento que com ela adquire e exprime significação, e por entre este vazio nasceu e cresceu o pasmo dos deslumbrados.

A linguagem sofreu mutações e a capacidade da sua apropriação por parte dos seres já dominados inibe que dessa metamorfoseada realidade se possam dar conta.

Há um novo tempo e há um novo espaço de plurissignificações que em si muito contém a mercadoria do mundo ilusório.

A barbárie do simulacro antecedeu tanta inverdade que os seres confundidos e anestesiados se têm mostrado incapazes do exercício do questionar.

As migalhas que se foram aceitando do poder e da intectualidade que com ele privaram e privam, constituíram a primeira prova da mansuetude cerebral dos múltiplos inquilinos dominados neste sistema.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Moça Bonita



Auto-retrato na penteadeira - Zinaida Evgenievna Serebriakova


É uma simplicidade quieta, discreta muito, esta da moça, só, no quarto, em quase-silêncio, a se experimentar de imagens diante da penteadeira. Talvez isso me seja apenas lembrar de algo que o tempo já não mostre mais deste modo, dado que as de hoje, as moças, devem ter aperfeiçoado seus rituais de beleza e se demorem ali por outros motivos, não os de outrora. Porém, à vista disso, lembro-me desta cena (ou a invento a partir de retalhos tantos de memórias de meu arcabouço pessoal).

Vai nem uma tarde inteira nisto, mas bastante. E o tempo não se conta desta forma para quem se “lambe” ao espelho, ri-se de uma ou outra coisa, faz-se e se refaz, troca de lábios, de olhos e cabelo. É a moça diante da penteadeira. Extrai mais beleza, conforta-se com o achado? Não deve ser bem isso. É mais como passear, jogo de meninas, não de meninos. É um saborear a si. E é grátis, não custa dinheiros caros.

Outra a verá, de janela aberta, sair porta afora e exibir sua conquista suficiente. Os homens é que não perceberão, posto que são cegos para tanto. Mas a outra moça, mãos aflitas, na janela, há de ver e pensar tratar-se de um namorado. "Ah, se a beleza trata de se esmerar, só pode ser isso, um namoro". Ou a intenção de. A beleza, se de outrem, arma que é, incomoda. Mas a moça, a de vestido branco e longos cabelos, não se importa. Cumpre-lhe apenas ser, na idade em que isto explode em todas as direções, ainda que discreta, simples e elegantemente.


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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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sábado, 11 de abril de 2020

Um Passeio de Canoa





O que havia do outro lado do rio? As chuvas engordavam de águas aquilo tudo, o rio fazia-se majestoso, feroz, escuro, vinha de longe e para mais longe se ia. E do outro lado, que casas eram aquelas e quem ali vivia? Não era de todo que não sabia, claro, já que alheamento completo era impossível. Mas, ali, casas distantes, mas a vista, com gente que ia a vinha, já não era a cidade, era outra coisa, o desconhecido.

Por vezes, ficava eu à beira do rio, em segurança, claro. Observava as canoas e seus condutores, os quais usavam, a princípio, enormes varas para navegar. Eles tocavam o fundo e tomavam impulso. Depois, com o rio muito cheio, já não alcançavam o fundura do leito, lá embaixo e, então, trocavam as varas por remos. As canoas levavam gente e mercadorias, algum animal menor, cães, carneiros, algo assim. Os remadores davam contra a corrente, formando quase um meio círculo nas águas, evitando a força maior do rio. Chegavam ao outro lado, cansados, e ali deixavam as pessoas e seus pertences. Em tempos de muita chuva, quando o rio transbordava para o lado de lá, os baixios sucumbiam mais cedo e parte das casas ficava com água quase no telhado. Para onde iam as famílias?

Alfabetização





Os nomes das coisas, a possibilidade de classificá-las, distinguindo-as a partir de suas características próprias, e, de alguma forma, colecioná-las, dispô-las em conjunto, delas apossar-se, tê-las, guardá-las. Os nomes de tudo, mas não apenas de se saber falar, sonorizar, mas de se assentar num papel, num caderno, retendo, riqueza que se possui, embora não se possa trocar por comida ou outro bem, nem oferecer, tal pedaço de bolo, a um amigo ou irmão. Buscar a parte que nos cabe no mundo, alfabetizar-se, adentrar os domínios da língua e da linguagem e, deste modo, subir, crescer, evoluir, tornar-se alguém.

A cartilha era a ferramenta que dispunha da seguinte estratégia: para cada letra, a associação a um bicho. “A” de abelha, uma abelha cuja figura era de uma só asa, curiosa e mágica. E as outras letras, os outros bichos, mais de vinte. Para uma criança, uma imensidão de novidades dada como brincadeira. A professora, de nome agora injustamente esquecido, era a condutora da aventura. Jovem, enérgica, mas terna, sabia que éramos crianças, não meros ignorantes. E nos ensinava com o melhor que podia.

Ao voltar para casa, a pé, amiguinhos lado a lado, todos falávamos, uns mais ávidos, outros mais de escuta. E, ao passar por um cachorro, já imaginávamos assentá-lo num papel, no caderno, o nome dele, não ele mesmo, claro. Mas ainda não sabíamos como exatamente fazer isto. Uma casa, uma árvore, uma bicicleta, o nome ainda obscuro de algum letreiro, a inscrição nalgum veículo... Agora era questão de tempo.

A mãe era a nossa segunda professora, menos preparada em conhecimentos e mais ansiosa de que soubéssemos ler e escrever. Dava-nos a lição de casa, percorrer a cartilha, cobrir letras a lápis em cadernos de caligrafia, contornando-lhes o desenho, uma curva aqui, uma reta ali, uma palavra que se formava, tijolinho por tijolinho, as sílabas e suas famílias. Iam-se os dias.

Lembro-me de quando acabou-se a estória da cartilha, cumpridas todas as letras e todos os bichos. Não compreendi. Pedi a professora que continuasse a aventura. Ela, com um sorriso, disse-me já haver terminado. Continuei não compreendendo e, dada a chacota que os coleguinhas fizeram, achei melhor aquietar-me e aceitar. Depois, claro, com o tempo, soube ser apenas uma estratégia aquela coisa de letras e bichos. E que o que importava era ter penetrado e desvendado o mundo da escrita e da leitura, podendo agora ser gente, como diziam os mais velhos. Cachorro, árvore, nome de pessoa, de estrela, de coisa ordinária ou rara, agora de tudo eu podia assentar na rudeza daquele caderno barato.


│Autor: Webston Moura│



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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

ESTRANHAMENTO



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por: Tânia Du Bois

Dia após dia sinto-me estranha. Não enxergo o horizonte, nem escuto os pássaros. Escuto as vozes em tom baixo e sem força. Meu dia é longo, curta a noite. As cortinas estão fechadas. Estaria passando pela minha intransparente solidão? Nas palavras de Álvaro Pacheco, “...Na minha vida que passa / eu passo do reencontro / dos tempos que me matei: / não cumpro as missões jacentes / dos fatos de alegrar-me: / minha sina é entristecer-me...”.

Escuto na insônia o lamento da vida, quando minhas outras vozes meditam no escuro do quarto. Traço linhas; escrevo sobre o silêncio que espreita a minha vida entre tentativas infrutíferas de bem estar.

Estranho é o mistério quando sigo minhas ruínas até o tempo remontar meu pequeno sonho: seguir as luzes para poder distinguir nas sombras a hora da verdade. Ainda em Álvaro Pacheco, “...Apenas a solidão / se comunica conosco: / é sofrer nas almas / esse meio e fim / (e sobreviver, ah, sobreviver)”.

É necessário resistir à estranheza temporal que diz que fui conquistada: minhas forças estão fracas. A vida me leva em altos e baixos nas várias cores da solidão. Ás vezes, penso em não mais ficar sem quem me convença a procurar parâmetros que multipliquem meus sentidos, para marcar o tempo e determinar as causas do estranhamento nos meus dias. Estaria nas pequenas coisas a grandeza da vida? Ou, como Álvaro Pacheco reflete, “...a vida nos desgasta / nessas repetições cruas / não não / nos habituamos jamais”.


│Crônica constante de Na Sombra dos Sentidos (Projeto Passo Fundo, 2019), de Tânia Du Bois.

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Leia também:
- JOGO EMOCIONAL (I)
- TRAÇOS INSTIGANTES
- AUTÓPSIA DO INVISÍVEL
- O REFLEXO COMPLEXO EM SI...
- A LUMINOSIDADE DO ESCURO
- MOSAICO DE RUÍNAS
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TRAÇOS INSTIGANTES



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por: Tânia Du Bois

Tomo como exemplo a fotografia das crianças sentadas de frente para o mar. Elas estão totalmente integradas à paisagem. A sensação que essa imagem produz, é a de serem “engolidas” pela paisagem, de tão pequenas que se tornam diante do mar; verdadeiros traços instigantes.

A mesma imagem permite outra revelação, a de que a paisagem é tão ampla que a minha imaginação se apresenta num tempo onde há o jogo entre o sentimentalismo e a hora do clik, permitindo admirar no espaço a bela imagem do ser diante da paisagem, enquanto arte, e a perceber a diminuição do ser, enquanto traços instigantes.

Momento artístico, descrito através da imagem como movimento, também encontrado na literatura nos traços instigantes da poesia. Alguns poetas descrevem a paisagem e homenageiam a grandiosidade do momento, como Douglas Mansur: “...fotografo com os olhos / revelo no pensamento / Amplio no coração / Distribuo com os lábios e com as mãos / Eternizando os momentos da história”.

A hora do clik registra traços instigantes em que considero o tempo como o melhor momento, porque, sem amarras, junta o passado ao presente na expectativa de que o futuro seja construído com suas verdades.

Busco nos traços instigantes respostas, em diferentes campos e, assim, emocional e culturalmente me fortaleço ao nutrir equilíbrio entre a paisagem e a reflexão da imagem, como relevância e suporte à mente e ao valor que a arte tem na posteridade; não como doação e sim pela qualidade que desempenha em minha vida. Douglas Mansur revela: “Fotografo no claro / Revelo no escuro / Amplio na luz vermelha / Na luz do passado vejo a história”.

Interessante como as pessoas interpretam de maneira diferente uma mesma paisagem. Enquadram a imagem com o objetivo mobilizador do pensamento, dando o toque pessoal à fotografia.

Atualmente, quando vista em paisagem considerada interessante, a imagem é registrada através do aparelho celular e, imediatamente, colocada nas redes sociais. Essa é uma das variantes do mundo moderno. No entanto, há a tendência de que o uso do celular para fotografar e divulgar traços instigantes estigmatiza comportamentos ditos despojados, não sendo algo culturalmente relacionado à arte, o que seria comprovado apenas pela sensibilidade de cada um.

Traços instigantes: imagem versus paisagem, ganha como o aliado o aparelho celular nos possibilitar desvelar com habitualidade o momento da contemplação. É impacto que põe em xeque a motivação versus arte, emoção versus momento. Que, sem rotulações abre portas para a imaginação em leque de possibilidades para atribuir significados aos traços diferentes, esculpidos através da vivência, com o poder transformador das artes, como escreveu Margarida Reimão. “Uma realidade marcada na moldura de um quadro...”

│Crônica constante de Arte em movimento (Projeto Passo Fundo, 2016), de Tânia Du Bois.

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Leia também:
- Jogo Emocional (I)
- Chamas
- Poemas de Pedro Du Bois
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JOGO EMOCIONAL (I)



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por: Tânia Du Bois

A música é suspiro efêmero, mágica elevada aos céus e ao inferno: relembra momentos e embala meu corpo no ritmo no prazer e da dor da saudade. Como em Geraldo Vandré, no Festival da Canção de 1968, “caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não / Nas escolas, nas ruas, campos, construções...”.

A vida é feita de opostos que se completam: tendo a lembrança, como esquecê-la? Na música encontro o reconforto pelo que passou e restou apenas na sonoridade sentida como recordação. Por isso, reinvento o viver, musicalmente, para sentir o presente. Assim, na música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, “Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento...// Eu tomo uma Coca-Cola / Ela pensa em casamento / E uma canção me consola / Eu vou // Sem lenço e sem documento / Nada no bolso ou nas mãos / Eu quero seguir vivendo o amor...”; marco do movimento tropicalista ao ser apresentada, em 1968, no Festival da TV Record.

Quando escuto músicas, sou tomada pelo jogo emocional em cenas de luzes, cheiros e sabores, onde meu pensamento se alia ao tempo que se amplia, fosse mar de sentimentos.

Os músicos constroem “arquiteturas” exuberantes, pois, conseguem retratar meu “clima envolvente” em cada canção, refletindo a alegria e a tristeza como momentos únicos, onde interiormente grito minhas saudades.

São inúmeras as vezes em que a música me ilumina em tons, que me permitem “fingir" que estou revivendo o jogo emocional; assim, o show de Bossa Nova, em 1960, intitulado A Noite do Amor Do Sorriso e Da Flor, apresentado nas dependências da UFRJ, com a participação de João Gilberto; Ronaldo Bôscoli anunciou que “Esta é a noite do amor, do sorriso e da flor. E este é realmente o primeiro festival de bossa nova mesmo. Não se espantem...”.

Sei o valor da música na vida; nela navego nos braços dos sentimentos; vejo o por do sol se refletir nas águas do mar, deixando claro esta vida de sombras. Então, sinto a importância da música, porque ela dá a sensação de poder envolver o passado nas lembranças presentes; como acontece quando escuto Elizeth Cardoso, na comemoração dos 50 anos de Bossa Nova, em Chega de Saudade: // “Chega de saudade / Vai minha tristeza e diz a ele / Que sem ele não pode ser...”.

Momentos em que, ao resgatar detalhes do meu viver, sinto vontade de estar novamente dançando pelo tempo e ouvindo a alegria do coração, como proposta para capturar as “imagens” como jogo emocional. Evinha bem refaz, cantando // Eu vou voltar aos velhos tempos de mim / Vestir de novo meu casaco marrom / Tomar a mão da alegria...


│Crônica constante de A Linguagem da Diferença (Projeto Passo Fundo, 2019), de Tânia Du Bois.
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