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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A Beleza Antiga






Eu acho que de vestido ou saia as mulheres ficam mais bonitas. Claro: as que já são naturalmente bonitas ou não tão feias, essas, sim, ficam. Mas não digo isso com a intenção de palpitar sobre como uma mulher deva ou não se vestir. Hoje, um palpite desses é capaz de gerar uma discussão apaixonada, com direito a algum xingamento por parte das possíveis ofendidas.

Vejo na internet imagens antigas, lá de décadas passadas do século XX. Há mulheres com roupas tipicamente femininas, todas muito elegantes, finas, ainda que algumas vistam roupas simples mesmo. Era como as pessoas viam as coisas, a partir do que consideravam certo e errado, bonito e feio, possível e impossível. Eram os padrões. Padrões que, na distância do tempo, observando especialmente fotos dos anos 1930 e 1940, a mim me dão certo prazer. Prazer em contemplar a graciosidade daquelas mulheres e suas roupas muito bonitas.

domingo, 30 de novembro de 2025

Os Sons da Cozinha



The Kitchen (c.1898)
- Carl Larsson



Os sons da cozinha são dos que mais nos acostumamos a ter como nossos, íntimos. Falo da cozinha de casa. E não precisamos ser parte integrante, não precisamos ser exatamente aqueles que operam a cozinha. Da cozinha vêm as nossas refeições, diárias refeições. É a usina chefiada pelas nossas mães, quando ainda as temos, é um lugar de alquimia.

Mas não só os sons, já que os cheiros é que acabam chamando mais a atenção. Entretanto, quero destaca os sons.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Brutos Silêncios



Silêncio (1900) - Odilon Redon



Pessoas (ditas) importantes viram nome de rua. Andamos por aí e nos deparamos com um bocado deles. As placas, geralmente antigas, exibem os nomes. Nós os lemos, mas, em geral, nosso interesse é apenas de nos localizarmos, não estamos interessados mesmo em saber sobre os donos dos nomes.

Paro a pensar nisso e vejo ali o nome inscrito, silencioso, grafia bem riscada que reduz tudo o que foi aquela pessoa ao registro, uma anotação fria. Tenho a impressão de que o silêncio que aquele nome me dá é uma criptografia, um segredo que tenho que desvendar. Em seguida, deixo isso de lado, pois sei que estou apenas imaginando, ficcionando a situação.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O Exercício da Humildade



O Peixe e a Lua - Mordecai Ardon



Caminhando pela rua com Nina, uma cachorrinha que há aqui em casa, a última de três, avistei adiante um urubu no chão. Rápido, ele me pareceu catar algo. Em seguida, levantou voo e passou por cima de mim, quando olhei e vi que ele tinha ao bico uma lagartixa, sua refeição daquele momento, obviamente.

Como no caso anterior, já vi em vídeo outros animais sendo devorados vivos. São vídeos feitos na África, aonde os safáris de passeio acontecem e as pessoas podem filmar a vida animal, incluindo aí os predadores em ação pegando suas presas e as comendo vivas.

sábado, 22 de novembro de 2025

É Legítimo Chorar



Uma estrada holandesa (1880)
- Anton Mauve



Não chore!, dizem-nos. Isto ouvimos, aqui e ali, mas mais na infância. É como se chorar fosse uma fragilidade, uma covardia ou algo pior. Porque, como dizem os (supostamente) fortes, quem chora é o fraco. Mas choramos. Uns mais, outros menos. Com sorte, choramos, digo eu.

O choro é algo que não cabe muito na interpretação da razão. É o transbordamento de algo que não tem outra saída em nós, a não ser ir para fora, expulso em lágrimas e outros gestos.

Como nós, vemos que há animais que também choram. Ou parecem chorar. Se é assim, é porque também sentem.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A Folha Seca






A folha seca me aparece na rua, o vento a leva e a deposita a um canto perto do meio-fio. É como outras que por aí se vão, pequenas coisas sem importância no atarefado mundo humano.

Observo-a. Matéria biológica, vida orgânica, ela está se decompondo. Separada da planta, perdeu seu verde e sua intenção de ser. Mas, ainda assim, segue seu destino de ir até ao fim e servir de alimento para o reino geral da natureza.

domingo, 16 de novembro de 2025

Fim de Ano






Novembro, penúltimo mês do ano. O tempo voou neste 2025. Tenho essa impressão. Mas gosto da ideia de fechar um ciclo e iniciar outro. E gosto também desse período de fim de ano, tempo de festas.

Sempre me lembro da infância quando o ano se vai terminando. Sou nostálgico e "piorei" muito de uns tempos pra cá. Lembro-me de coisas agradáveis, minha família ainda inteira, as pessoas passando na rua, a noite, o fervor do movimento, visitas, risos, imagens que hoje me dão a mistura de alegria e tristeza.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Boas Festas!




Nativity of Christ (1523)
- Lorenzo Lotto



Acho que eu tinha uns quatro anos de idade. Minha família morava na zona rural. Em certa noite, deram de me vestir uma calça marrom, de botões, e me puseram também uma camisa. Fiquei todo formal. Sapatos, claro, que naquela época as crianças usavam sapatinhos marrons de cadarços. E aí fomos de carro até a cidade para a casa de minha avó materna.

Para mim, era uma mistura de novidade e tumulto. Por que me retiraram de meu quieto mundo, à noite, para uma viagem à cidade?

domingo, 22 de dezembro de 2024

Envelhecer



Old Man in Warnemunde (1907)
- Edvard Munch



Você está ficando velho, diz alguém. É como se dissesse que você está ficando fraco e falho. Não seria mais certo dizer que, com a idade - o tempo -, você está ficando maduro?

Numa sociedade aonde e pujança é reduzida ao vigor físico, à aparência, envelhecer é perder a credibilidade.

Deve ser assim mesmo?

Envelhecer é ganhar o jogo, afinal a vida tem sua dureza, e ir adiante, avançar anos, é superar obstáculos. Para tanto, virtude e luta, além, obviamente, de condições dignas.

Envelhecer não á apenas enrugar-se e andar mais devagar, mas olhar mais devagar, como quem exerce atenção e compaixão, nobrezas do ser humano.

Nenhuma fase é intrinsecamente ruim ou triste, tampouco deve ser vista como estranha. Em nós, nos bichos, nas árvores, nas rochas, aonde for, envelhecer é bom e precisa ser dito assim, para que nos humanizemos.

Ah, mas eu não queria! Sim, há em nós um sabor de eternidade e juventude que gostaríamos que fosse já aqui nesta vida. Mas não é assim. A natureza tem sua própria maneira de fazer as coisas, não nos cabendo roubar-lhe o protagonismo. Sejamos humildes!

E sejamos felizes tanto quanto pacientes e sábios.



|Autor: Webston Moura|

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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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domingo, 29 de setembro de 2024

Nosso Espaço Interior e os Desejos




Espaços Interiores (1989) - Charles Bezie



Em geral, pensamos que o nosso interior é apenas o espaço dos desejos, que ele só produz isso, além de alguma dor. E que, satisfazendo-os, nós nos realizamos. Porém, o que mais experimentamos, a vida inteira, é a frustração diante das tantas tentativas que encontram pela frente obstáculos intransponíveis. Alguns desejos encontram seu caminho e seu objetivo, chegando à realização. A maioria, não.

Assim sendo, se considerarmos que o máximo de nós são os desejos, teremos de concordar com a verdade de que somos imensamente falhos, como um projeto que, desde o início, existe para dar errado mesmo afinal o enredo de ilusões e quedas é tal que até parece que somos um tipo de ser que não funciona. Concorda?

sábado, 28 de setembro de 2024

Nós e a Política





Muito se gasta nas campanhas eleitorais. Mas, a bem da verdade, o meio político é, o tempo inteiro, uma orgia de dinheiro pra lá e pra cá. Orgia que alegra, enlouquecidamente, aos participantes, comumente homens.

O que geralmente dizem, sobre se importarem com as pessoas, isso é apenas o jogo de cena que a política oficial requer. É uma farsa, um teatro. E todos sabemos disso há tempos. E também sabemos que, em qualquer época, o poder tem disso: uma luta rica, cheia de recursos materiais e ambição desmedida, aonde egos se digladiam, para ver quem vence. A realidade que se dane.

domingo, 8 de setembro de 2024

Nem Tudo Faz Sentido



G-1 (1985) - Emil Schumacher


Há quem não goste desse tipo de arte. Refiro-me à pintura que você vê aí na postagem,  a tela G-1, de Emil Schumacher. Eu digo o contrário, digo que gosto, pois gosto tanto do que é figurativo como de outras formas, o que inclui esta maneira de pintar, que se chama Taquismo.

Ah, mas o que ela quer dizer? Não sei. Isso fica por conta dos estudiosos, de quem vai atrás. A mim, como pessoa que simplesmente se emociona, basta-me a comoção, o encantamento.

sábado, 7 de setembro de 2024

Infância e Futebol



Futebol - Mario Zanini


Não era bem meu interesse fazer aquilo. Desde que me entendo por gente, sou assim um tanto desligado, mais pensativo que prático. Mas ali estava eu, manhã já findando, os meninos jogando, a bola correndo.

Ficamos, uns poucos, depois que a aula acabou. Era o horário da manhã. A escola, que era grande, com espaço de sobra, era também agradável. E permitia que ficássemos, ainda que fosse além do horário. Se não sempre, mas aqui e ali, permitia.

domingo, 18 de agosto de 2024

A Solidão



Loneliness (1927) - Carlos Saenz de Tejada



Diz a banda Engenheiros do Hawaii, na música "Nau a Deriva": "Meu coração é um porta aviões / Perdido no mar, esperando alguém chegar / Meu coração é um porto sem endereço certo / É um deserto em frente ao mar".

É a solidão. E, neste caso, a solidão de alguém que se diz à deriva, perdido, desconectado dos outros ou, quem sabe, e mais especialmente, necessitado de alguém como uma namorada. Ou um bom amigo, simplesmente.

O poeta Vinícius de Moraes, no texto "Da Solidão", diz: "A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana."

terça-feira, 6 de agosto de 2024

As Tão Presentes Coisas Invisíveis



Sunday (1926) - Edward Hopper


Edward Hopper fez pinturas como esta que você vê acima. E o título, "Domingo", sugere aí folga e tédio, possivelmente, também, cansaço. Vê-se apenas um homem sentado na calçada, perto do meio-fio, com uma atitude tristonha, parada. Excetuando-se a presença dele, a rua está deserta, sem passantes.

As cores, como em outras pinturas do artista, são claras, objetivas, unindo, simultaneamente, um realismo a algo artificial, como percebemos bem, já que não é uma foto, mas uma pintura, óleo sobre tela, isto fica claro, apesar do realismo da expressão.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Jean Yves Leloup em "A Elegância do Eu"






"O homem nobre" habita como um poeta na Terra, ou seja, ele vê todas as coisas na sua intensidade, transparência e plenitude, não vive num mundo de objetos e sim num mundo de presenças, ele vê tudo o que é invisível no visível e tudo o que é visível no invisível. O visível é invisível, o invisível é visível, estes não são paradoxos fáceis, mas afirmações do mundo como teopany, revelação ou revelação (parousy).

Sem se afastar das aparências, o nobre ou poeta contempla a aparência.

É esta, a beleza que "salva" o mundo, ou seja, que o amplia, faz com que "respire largo", substitui-o no invisível, de fato a testemunha carnal do Infinito.

Se, como Dostoiévski afirma, "é a beleza que salvará o mundo", devemos perguntar-nos imediatamente "quem salvará a beleza"? Essa é a questão. Enquanto houver mulheres e homens capazes de se maravilhar e assombro, a beleza sobreviverá.

quinta-feira, 14 de março de 2024

O Futuro de Tudo (3)




A linguagem empobrecida, empobreceu o pensamento que com ela adquire e exprime significação, e por entre este vazio nasceu e cresceu o pasmo dos deslumbrados.

A linguagem sofreu mutações e a capacidade da sua apropriação por parte dos seres já dominados inibe que dessa metamorfoseada realidade se possam dar conta.

Há um novo tempo e há um novo espaço de plurissignificações que em si muito contém a mercadoria do mundo ilusório.

A barbárie do simulacro antecedeu tanta inverdade que os seres confundidos e anestesiados se têm mostrado incapazes do exercício do questionar.

As migalhas que se foram aceitando do poder e da intectualidade que com ele privaram e privam, constituíram a primeira prova da mansuetude cerebral dos múltiplos inquilinos dominados neste sistema.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Moça Bonita



Auto-retrato na penteadeira - Zinaida Evgenievna Serebriakova


É uma simplicidade quieta, discreta muito, esta da moça, só, no quarto, em quase-silêncio, a se experimentar de imagens diante da penteadeira. Talvez isso me seja apenas lembrar de algo que o tempo já não mostre mais deste modo, dado que as de hoje, as moças, devem ter aperfeiçoado seus rituais de beleza e se demorem ali por outros motivos, não os de outrora. Porém, à vista disso, lembro-me desta cena (ou a invento a partir de retalhos tantos de memórias de meu arcabouço pessoal).

Vai nem uma tarde inteira nisto, mas bastante. E o tempo não se conta desta forma para quem se “lambe” ao espelho, ri-se de uma ou outra coisa, faz-se e se refaz, troca de lábios, de olhos e cabelo. É a moça diante da penteadeira. Extrai mais beleza, conforta-se com o achado? Não deve ser bem isso. É mais como passear, jogo de meninas, não de meninos. É um saborear a si. E é grátis, não custa dinheiros caros.

Outra a verá, de janela aberta, sair porta afora e exibir sua conquista suficiente. Os homens é que não perceberão, posto que são cegos para tanto. Mas a outra moça, mãos aflitas, na janela, há de ver e pensar tratar-se de um namorado. "Ah, se a beleza trata de se esmerar, só pode ser isso, um namoro". Ou a intenção de. A beleza, se de outrem, arma que é, incomoda. Mas a moça, a de vestido branco e longos cabelos, não se importa. Cumpre-lhe apenas ser, na idade em que isto explode em todas as direções, ainda que discreta, simples e elegantemente.


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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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sábado, 11 de abril de 2020

Um Passeio de Canoa





O que havia do outro lado do rio? As chuvas engordavam de águas aquilo tudo, o rio fazia-se majestoso, feroz, escuro, vinha de longe e para mais longe se ia. E do outro lado, que casas eram aquelas e quem ali vivia? Não era de todo que não sabia, claro, já que alheamento completo era impossível. Mas, ali, casas distantes, mas a vista, com gente que ia a vinha, já não era a cidade, era outra coisa, o desconhecido.

Por vezes, ficava eu à beira do rio, em segurança, claro. Observava as canoas e seus condutores, os quais usavam, a princípio, enormes varas para navegar. Eles tocavam o fundo e tomavam impulso. Depois, com o rio muito cheio, já não alcançavam o fundura do leito, lá embaixo e, então, trocavam as varas por remos. As canoas levavam gente e mercadorias, algum animal menor, cães, carneiros, algo assim. Os remadores davam contra a corrente, formando quase um meio círculo nas águas, evitando a força maior do rio. Chegavam ao outro lado, cansados, e ali deixavam as pessoas e seus pertences. Em tempos de muita chuva, quando o rio transbordava para o lado de lá, os baixios sucumbiam mais cedo e parte das casas ficava com água quase no telhado. Para onde iam as famílias?

Alfabetização





Os nomes das coisas, a possibilidade de classificá-las, distinguindo-as a partir de suas características próprias, e, de alguma forma, colecioná-las, dispô-las em conjunto, delas apossar-se, tê-las, guardá-las. Os nomes de tudo, mas não apenas de se saber falar, sonorizar, mas de se assentar num papel, num caderno, retendo, riqueza que se possui, embora não se possa trocar por comida ou outro bem, nem oferecer, tal pedaço de bolo, a um amigo ou irmão. Buscar a parte que nos cabe no mundo, alfabetizar-se, adentrar os domínios da língua e da linguagem e, deste modo, subir, crescer, evoluir, tornar-se alguém.

A cartilha era a ferramenta que dispunha da seguinte estratégia: para cada letra, a associação a um bicho. “A” de abelha, uma abelha cuja figura era de uma só asa, curiosa e mágica. E as outras letras, os outros bichos, mais de vinte. Para uma criança, uma imensidão de novidades dada como brincadeira. A professora, de nome agora injustamente esquecido, era a condutora da aventura. Jovem, enérgica, mas terna, sabia que éramos crianças, não meros ignorantes. E nos ensinava com o melhor que podia.

Ao voltar para casa, a pé, amiguinhos lado a lado, todos falávamos, uns mais ávidos, outros mais de escuta. E, ao passar por um cachorro, já imaginávamos assentá-lo num papel, no caderno, o nome dele, não ele mesmo, claro. Mas ainda não sabíamos como exatamente fazer isto. Uma casa, uma árvore, uma bicicleta, o nome ainda obscuro de algum letreiro, a inscrição nalgum veículo... Agora era questão de tempo.

A mãe era a nossa segunda professora, menos preparada em conhecimentos e mais ansiosa de que soubéssemos ler e escrever. Dava-nos a lição de casa, percorrer a cartilha, cobrir letras a lápis em cadernos de caligrafia, contornando-lhes o desenho, uma curva aqui, uma reta ali, uma palavra que se formava, tijolinho por tijolinho, as sílabas e suas famílias. Iam-se os dias.

Lembro-me de quando acabou-se a estória da cartilha, cumpridas todas as letras e todos os bichos. Não compreendi. Pedi a professora que continuasse a aventura. Ela, com um sorriso, disse-me já haver terminado. Continuei não compreendendo e, dada a chacota que os coleguinhas fizeram, achei melhor aquietar-me e aceitar. Depois, claro, com o tempo, soube ser apenas uma estratégia aquela coisa de letras e bichos. E que o que importava era ter penetrado e desvendado o mundo da escrita e da leitura, podendo agora ser gente, como diziam os mais velhos. Cachorro, árvore, nome de pessoa, de estrela, de coisa ordinária ou rara, agora de tudo eu podia assentar na rudeza daquele caderno barato.


│Autor: Webston Moura│



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Webston Moura
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