EM OLHOS DE ARDÓSIA

Do sertão, infinita noite:
açafroada lua ressoando azul;
o silêncio viril em que um pássaro
─ anjo de cobre, olhos de ardósia ─
enovela-se no ar (orvalho suspenso)    
e canta num triz sua voz de aviso
passo por aqui e chamo aos vivos.



Um menino anda
na estrada poeirenta.

Quem vem lá?
Um sem-nome, um vulto.
Quiçá um dia se saiba
do que lhe ocorre
entranhas adentro,
sua força medida
em cada pulso,
seus olhares ternos
para a estrelas,
e este dia ido
em olhos de ardósia.


│Autor: Webston Moura
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PESSOA

Frágil, surgia.
Vitis vinifera.
Tão forte!



Assustada, carecia de abraços.
Não queria pensar, medir, saber.

Desapareça, cabeça, desapareça!

Assim é o corpo quando só,
quando dor: todo humano.
Assim é o humano.

Assustada, queria apenas sumir-se do presente;
depositar-se, tranquila, nalguma longinquidade.

Por isso e gradual, o vinho.
E o sofá diante da janela.
(Cor de trigo, dócil, a tarde).

Silêncio.
Dentro do abraço,
fora do mundo,
desassustava-se.

E o vinho já lhe corava os olhos.
Seu corpo, lar, canção, deserto.

│Autor: Webston Moura
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Actinidia deliciosa

Perca-se o relógio
no fastio de sua rotina.



Sim, estou feliz!
Mares ressoam horizonte além.
Compreendo o abajur,
melhor dizendo,
esta luz convidativa
que esconde e revela um corpo.

Forte é o coração quando deseja.
E se os olhos acolhem
─ brisa fagueira, carruagem de filme ─,
diz-se desta alegria chamar-se amor,
termo com que se nomina o ser e o sentir
                                                     ensolarados.

É de ordem intima esta festa.
Fora do index das coisas que padecem,
é vida demorada no abrir-se de uma fenda,
um estalo revigorante de supremo sumo.

Sim, imagino que o transeunte me estranhe.
Mas, perdoa-me, que estou na praia doutro país!
E meus olhos não veem senão a exata beleza.
Não posso permitir-me sobressaltos,
tampouco assombradas hesitações.
Vou fechar os olhos e pular.

│Autor: Webston Moura
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POEMAS DE LEONAM CUNHA


poema viscoso

Observei o espectro profético:
a lesma desbrava o dia
idosamente
─ sem pressa nem medo do fim

Em verdade, em verdade vos digo:
aquele que tem ânsia de lesmas
caminha canino comigo.



jaculatória

Só tenho intenções
perto da linha do horizonte.
Assim ─ distante ─
saboreio a pretensão do crepúsculo
em ser noite.
Ser noite é muito pesado.
Eu avoo.
Minha reza
é mais ou menos:
se eu pudesse ter braços de palha,
balançaria no vento;
eu desejo conduzir tempestades.



dia-rio (parte dois)

Conheci uma mulher-noite.
Que tinha olhos de voo.
E dentes de quem quer mais.



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Poemas constantes de "Condutor de tempestades" (Sarau das Letras, 2016)






Leonam Cunha [Areia Branca, RN] publicou, em 2012, seu primeiro livro de poesia, “Gênese”, e em 2014, “Dissonante”, ambos pela Sarau das Letras. “Condutor de tempestades” é seu terceiro livro.
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POEMAS DE KIKO ALVES


Âncoras

Há faróis no céu
Busco ao léu meu porto
Num mar de estrelas



O velho moinho

No salobro das pás
Sopram ventos do passado
Volteando em ponteiros
De relógios fantasmas
A girar para trás
Carreando lembranças
De antigos passageiros
E almas roídas de mar
Saudades inda vivas
Dependuradas no tempo
Serenam as tardes
E se vergam
No ranger das carcaças
Do velho moinho abandonado



Etéreo

Quando o mundo
Não mais me quiser
Vou dar no pé,
Vagar à toa.
Quando o mundo
Não mais me quiser,
Numa boa,
Vou viajar
Além do mar
E no azul do céu
Virar garoa



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Poemas constantes de "Ancoradouros" (Sarau das Letras, 2016)



Kiko Alves [Francisco Alves, Areia Branca, RN, 1955]. Formado em Engenharia Elétrica pela UFF, com mestrado nessa mesma área pela UFRN. Também poeta, compositor, letrista, cantor e ator. Ancoradouros é seu primeiro livro.

POEMAS DE PEDRO DU BOIS

1 Alugo o corpo ao personagem
e sou incorporado ao discurso plástico
da inverdade. Sou deus e demônio
personificados nas contradições. Besta
e pomba. Homem despossuído
de razões. A aparente calmaria antecede
a tormenta e a neve desce a montanha.

Sou outras gentes. Gentios
e crentes. A plateia estática na ação
do palco. O finalizar da música
no arrastar das cadeiras.


2 Ser além do personagem
o mito. História
em sua criação na apropriação
da ideia.
      A luz ilumina o palco
      com palavras
      apostas no papel.

A aposta sobrevive ao instante
da criação. A aposta se conforma
ao espaço preenchido de oportunidades.


3 Repito o texto
realizo o gesto
materializo
a palavra.

Permaneço.


4 Avesso ao comum
imortalizo
      a cena. O aplauso
      contém o ressentimento
      da realidade.

Retorno
e aprofundo
a vida
em verdades.



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Poemas constantes de "Poemas" (Projeto Passo Fundo, 2016)



NOTA DO EDITOR DO BLOG: O livro "Poemas", de Pedro Du Bois, o qual tive o prazer de fazer a apresentação, dividi-se em oito partes (secções), a saber: "Caminhar". "Iniciação ao Trabalho"; "Personagem"; "O Dia Empedrado"; "Sobre Leituras e Desentendimentos"; "Habitar", "Sob(re) o Melhor dos Mundos"; "A Indeterminação da Certeza". São dezenas de poemas, mas não estão distribuídos aleatoriamente, posto que, de conjunto em conjunto, formam uma unidade densa e complexa. O próprio título do livro, "Poemas", sugerindo o óbvio sobre o que ali se espera, é algo a se pensar no que diz respeito às sutilezas tantas, riquezas todas.  É uma poesia que nos convida a trabalhar. Os três poemas deste post constam da secção "Personagem". Sobre o autor, visite seu blog: http://pedrodubois.blogspot.com.br/.

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NA HUMANA PAISAGEM QUE ME PASSEIA

Cometo erros, e a simetria dos meus olhos
canta cascade, de Siouxsie and The Banshees.
Querem-me ordinário, usual e militante,
mas eu gosto é desses campos vazios,
o vagar da mente nos detalhes e no esparso.

Cometo erros, carne-e-osso, loiras noturnas
sorrindo sob a placa de neon-clichê, vénus.
Sinto-me assim, peixe incerto, lume-oscillare,
cântaro a receber ciganas danças, luau.

Chama-me, amor, babel querida, mulher!
Cá estou, calça jeans, sábado de ócio.
Chama-me, bala de café, fogo nômade!
Cá estou, velas ao vento, noite orvalhada.

Cometo erros.
E o que seria de mim
se não os cometesse
na humana paisagem que me passeia?

Quero fugir, quero fugir, quero fugir
de todos os olhos repetitivos.


│Autor: Webston Moura
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UMA CANÇÃO DE OLHOS FECHADOS

Quem frequenta esta varanda
montada em sonhos?



Ainda não! ─ digo ao por-do-sol,
lenta amorosidade que me toma,
para que se demore mais ao coração.
A Terra, noutros lugares, amanhece,
mas aqui não logro medir tempos;
quero a duração da natureza,
este seu fenômeno dito pousar a luz,
adentrar a noite e deixar subir ao chão do mundo
os olhos perspicazes de outros seres.

Mas, ainda não, que desejo
estar no talvez, na imprecisão,
no reflexo áureo-fugidio da luz na água.
Queira-me assim, impensante.

A vida é bela,
uma canção de olhos fechados,
Gal Costa passeando voz na amplidão.


│Autor: Webston Moura
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O ABSOLUTO

Ora che amo te
nasce il tempo da vivere*



Há uma moça debruçada na janela.
Seus cabelos, calidez mansa.
Olha a rua de um ano remoto,
cidade elevada ao sonho.

Seu vestido, silêncio, dobras,
a canção latente, o livro verde.

Para ela, meu olhar invisível.
Percorro o império de sua liberdade.

Na janela,
a moça,
recuado tempo,
rua e sombrinhas,
o absoluto.


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* Versos de "Grazie Amore", de Gigliola Cinquetti (intérprete)

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│Autor: Webston Moura
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PEREGRINO

Onde estão os homens,
os sérios homens angustiados,
não faço pátria.

Não tomo assento à beira
da desordem daqueles homens,
todos municiados de dissabores.

Antes, bem antes, o que eu quis
foi estar nesta estrada a que me dou
de pés descalços.

É a velha estrada,
esta velha e (em mim) sabida estrada,
inícios de meus passos, os mais primeiros,
mesmo que outros, mesmo que novos,
dado que tarefa e caminho do peregrino.


│Autor: Webston Moura
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UM NO OUTRO

Eu te dou esta música
e uma quinta-feira cuja tarde
é plenamente autêntica.    
Esquecidos de nós, somos!
E, mais tarde, quando a lua surgir,
conte-me, sem pressa, alguma lenda
de algum povo antigo e feliz.

Quero ver-te na duração de um café:
ritmo que se põe à boca
enquanto se vislumbra
o pouso de uma ave
no verde da folhagem.

A vida é isto,
discos espalhados,
o frasco de perfume
denunciando o íntimo
que nos toma um no outro.

Nosso tempo,
música gozosa e imune a intempéries,
diz-se casa e viagem,
               nunca exílio,
               nunca ausência.

│Autor: Webston Moura
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SÓIS QUE JÁ SE FORAM

Meus ossos,
as memórias que carregam,
os sóis que já se foram,
mais ainda, as tardes.

Amarre direito, com calma!
Ia-me, em seguida, arrastando
o carrinho verde pelo chão.

A vaca pastava;
o bezerro, quieto;
azul, o horizonte;
tudo era completo.

Ainda poucos,
meus irmãos
─ dou-me conta ─
onde estão?
Nalgum vão da casa,
num quarto cuja cor me foge.

Num dia de Natal,
vestiram-me uma calça marrom
de um tecido novo.
O botão, osso lapidado,
encerrava-me na segurança de quem,
                                                brincando,
                                 imitava um adulto.

Acho que vou chorar.
Para onde estão me levando?

Vozes,
gente que nunca vi,
horas da noite em que nunca abri olhos,
e, lá fora, a cidade, o encanto enorme.

Depois, dormi.
Com o que sonhei,
se em todo, naquele dia, sonhei?

Sóis que já se foram.

│Autor: Webston Moura
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