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Mostrando postagens de Novembro, 2016

EM OLHOS DE ARDÓSIA

Do sertão, infinita noite: açafroada lua ressoando azul; o silêncio viril em que um pássaro ─ anjo de cobre, olhos de ardósia ─ enovela-se no ar (orvalho suspenso)     e canta num triz sua voz de aviso passo por aqui e chamo aos vivos.


Um menino anda na estrada poeirenta.
Quem vem lá? Um sem-nome, um vulto. Quiçá um dia se saiba do que lhe ocorre entranhas adentro, sua força medida em cada pulso, seus olhares ternos para a estrelas, e este dia ido em olhos de ardósia.

│Autor: Webston Moura│ ___________________________

PESSOA

Frágil, surgia. Vitis vinifera. Tão forte!


Assustada, carecia de abraços. Não queria pensar, medir, saber.
Desapareça, cabeça, desapareça!
Assim é o corpo quando só, quando dor: todo humano. Assim é o humano.
Assustada, queria apenas sumir-se do presente; depositar-se, tranquila, nalguma longinquidade.
Por isso e gradual, o vinho. E o sofá diante da janela. (Cor de trigo, dócil, a tarde).
Silêncio. Dentro do abraço, fora do mundo, desassustava-se.
E o vinho já lhe corava os olhos. Seu corpo, lar, canção, deserto.

│Autor: Webston Moura│
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Actinidia deliciosa

Perca-se o relógio no fastio de sua rotina.


Sim, estou feliz! Mares ressoam horizonte além. Compreendo o abajur, melhor dizendo, esta luz convidativa que esconde e revela um corpo.
Forte é o coração quando deseja. E se os olhos acolhem ─ brisa fagueira, carruagem de filme ─, diz-se desta alegria chamar-se amor, termo com que se nomina o ser e o sentir                                                      ensolarados.
É de ordem intima esta festa. Fora do index das coisas que padecem, é vida demorada no abrir-se de uma fenda, um estalo revigorante de supremo sumo.
Sim, imagino que o transeunte me estranhe. Mas, perdoa-me, que estou na praia doutro país! E meus olhos não veem senão a exata beleza. Não posso permitir-me sobressaltos, tampouco assombradas hesitações. Vou fechar os olhos e pular.
│Autor: Webston Moura│
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POEMAS DE LEONAM CUNHA

poema viscoso
Observei o espectro profético: a lesma desbrava o dia idosamente ─ sem pressa nem medo do fim
Em verdade, em verdade vos digo: aquele que tem ânsia de lesmas caminha canino comigo.


jaculatória
Só tenho intenções perto da linha do horizonte. Assim ─ distante ─ saboreio a pretensão do crepúsculo em ser noite. Ser noite é muito pesado. Eu avoo. Minha reza é mais ou menos: se eu pudesse ter braços de palha, balançaria no vento; eu desejo conduzir tempestades.


dia-rio (parte dois)
Conheci uma mulher-noite. Que tinha olhos de voo. E dentes de quem quer mais.


POEMAS DE KIKO ALVES

Âncoras
Há faróis no céu Busco ao léu meu porto Num mar de estrelas


O velho moinho
No salobro das pás Sopram ventos do passado Volteando em ponteiros De relógios fantasmas A girar para trás Carreando lembranças De antigos passageiros E almas roídas de mar Saudades inda vivas Dependuradas no tempo Serenam as tardes E se vergam No ranger das carcaças Do velho moinho abandonado


Etéreo
Quando o mundo Não mais me quiser Vou dar no pé, Vagar à toa. Quando o mundo Não mais me quiser, Numa boa, Vou viajar Além do mar E no azul do céu Virar garoa


....................................... Poemas constantes de "Ancoradouros" (Sarau das Letras, 2016)

POEMAS DE PEDRO DU BOIS

1 Alugo o corpo ao personagem e sou incorporado ao discurso plástico da inverdade. Sou deus e demônio personificados nas contradições. Besta e pomba. Homem despossuído de razões. A aparente calmaria antecede a tormenta e a neve desce a montanha.
Sou outras gentes. Gentios e crentes. A plateia estática na ação do palco. O finalizar da música no arrastar das cadeiras.

2 Ser além do personagem o mito. História em sua criação na apropriação da ideia.       A luz ilumina o palco       com palavras       apostas no papel.
A aposta sobrevive ao instante da criação. A aposta se conforma ao espaço preenchido de oportunidades.

3 Repito o texto realizo o gesto materializo
a palavra.
Permaneço.

4 Avesso ao comum imortalizo       a cena. O aplauso       contém o ressentimento       da realidade.
Retorno e aprofundo a vida em verdades.

NA HUMANA PAISAGEM QUE ME PASSEIA

Cometo erros, e a simetria dos meus olhos canta cascade, de Siouxsie and The Banshees. Querem-me ordinário, usual e militante, mas eu gosto é desses campos vazios, o vagar da mente nos detalhes e no esparso.
Cometo erros, carne-e-osso, loiras noturnas sorrindo sob a placa de neon-clichê, vénus. Sinto-me assim, peixe incerto, lume-oscillare, cântaro a receber ciganas danças, luau.
Chama-me, amor, babel querida, mulher! Cá estou, calça jeans, sábado de ócio. Chama-me, bala de café, fogo nômade! Cá estou, velas ao vento, noite orvalhada.
Cometo erros. E o que seria de mim se não os cometesse na humana paisagem que me passeia?
Quero fugir, quero fugir, quero fugir de todos os olhos repetitivos.


│Autor: Webston Moura│ ______________________

UMA CANÇÃO DE OLHOS FECHADOS

Quem frequenta esta varanda montada em sonhos?


Ainda não! ─ digo ao por-do-sol, lenta amorosidade que me toma, para que se demore mais ao coração. A Terra, noutros lugares, amanhece, mas aqui não logro medir tempos; quero a duração da natureza, este seu fenômeno dito pousar a luz, adentrar a noite e deixar subir ao chão do mundo os olhos perspicazes de outros seres.
Mas, ainda não, que desejo estar no talvez, na imprecisão, no reflexo áureo-fugidio da luz na água. Queira-me assim, impensante.
A vida é bela, uma canção de olhos fechados, Gal Costa passeando voz na amplidão.


│Autor: Webston Moura│ _____________________

O ABSOLUTO

Ora che amo te
nasce il tempo da vivere*


Há uma moça debruçada na janela. Seus cabelos, calidez mansa. Olha a rua de um ano remoto, cidade elevada ao sonho.
Seu vestido, silêncio, dobras, a canção latente, o livro verde.
Para ela, meu olhar invisível. Percorro o império de sua liberdade.
Na janela, a moça, recuado tempo, rua e sombrinhas, o absoluto.


................................. * Versos de "Grazie Amore", de Gigliola Cinquetti (intérprete)
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│Autor: Webston Moura│ _______________________

PEREGRINO

Onde estão os homens, os sérios homens angustiados, não faço pátria.
Não tomo assento à beira da desordem daqueles homens, todos municiados de dissabores.
Antes, bem antes, o que eu quis foi estar nesta estrada a que me dou de pés descalços.
É a velha estrada, esta velha e (em mim) sabida estrada, inícios de meus passos, os mais primeiros, mesmo que outros, mesmo que novos, dado que tarefa e caminho do peregrino.


│Autor: Webston Moura│ _____________________

UM NO OUTRO

Eu te dou esta música e uma quinta-feira cuja tarde é plenamente autêntica.     Esquecidos de nós, somos! E, mais tarde, quando a lua surgir, conte-me, sem pressa, alguma lenda de algum povo antigo e feliz.
Quero ver-te na duração de um café: ritmo que se põe à boca enquanto se vislumbra o pouso de uma ave no verde da folhagem.
A vida é isto, discos espalhados, o frasco de perfume denunciando o íntimo que nos toma um no outro.
Nosso tempo, música gozosa e imune a intempéries, diz-se casa e viagem,                nunca exílio,                nunca ausência.
│Autor: Webston Moura│ ______________________

SÓIS QUE JÁ SE FORAM

Meus ossos, as memórias que carregam, os sóis que já se foram, mais ainda, as tardes.
Amarre direito, com calma! Ia-me, em seguida, arrastando o carrinho verde pelo chão.
A vaca pastava; o bezerro, quieto; azul, o horizonte; tudo era completo.
Ainda poucos, meus irmãos ─ dou-me conta ─ onde estão? Nalgum vão da casa, num quarto cuja cor me foge.
Num dia de Natal, vestiram-me uma calça marrom de um tecido novo. O botão, osso lapidado, encerrava-me na segurança de quem,                                                 brincando,                                  imitava um adulto.
Acho que vou chorar. Para onde estão me levando?
Vozes, gente que nunca vi, horas da noite em que nunca abri olhos, e, lá fora, a cidade, o encanto enorme.
Depois, dormi. Com o que sonhei, se em todo, naquele dia, sonhei?
Sóis que já se foram.
│Autor: Webston Moura│ ______________________