MANHÃ




Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo


Deito-me no meu corpo

E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar.


Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão.


Nada me alimenta

porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira


A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos


Educadamente mortos



(1979)




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# Poema constante de RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009)
# Originalmente, postado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)

│Autor: Mia Couto
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POEMA DE AMOR




O Céu, as linhas de luz na água, 
caminhos diferentes para o coração. 
A queda de sons diversos na atenta coincidência 
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde 
com um movimento de ombros junto do teu corpo, 
na luminosa sequência da tua voz. 
Um andar divino de transparente espectro 
sobre o fundo de árvores; 
o acentuar da impressão dos teus olhos 
na quente atmosfera estagnada. 
Mas o súbito levantar do vento dissipou 
a primitiva aparência. Um canto lívido 
de mortas recordações apenas subsistiu, 
o indefinido desgosto dos teus braços, 
o remorso de gestos incompletos 
que a memória suspende. 
Nem me espanto já com a tua proximidade. 
Bem vindos, decompostos lábios! 
O ranger da cama sobrepõe-se 
ao ruído das cigarras.



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# Poema constante de POESIA REUNIDA [(1967-2000) Pub. D.Quixote, 2000)]
# Originalmente, publicado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)

│Autor: Nuno Júdice
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TAL A UMA ÁRVORE MORTA DE PÉ

“O tolo cruza as suas mãos, e come a sua própria carne.
- Eclesiastes 4:5




São tantas as vozes, mas não lhes há esteio,
exceto por suas próprias sequelas,
ramos ardidos que noutros se repetem,
fastios de cães na noite infinda.

Pedem água e justiça; choram por leis
às quais apregoam bálsamo do mundo,
                                     se bem que não.
São elas mesmas toda a mesmice
que se consegue à força do hábito.

São tantas as vozes, mas uma voz só,
o canto de um bicho que se perdeu,
como a aborrecida beleza de um osso
ou tal a uma árvore morta de pé.


│Autor: Webston Moura│
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COISA AMAR




Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(1976)


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# Poema constante de Coisas do Mar (Perspectivas e Realidades; Lisboa, 1976)
# Poema replicado da página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)


│Autor: Manuel Alegre
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Visão



A montanha escondida
sob  a névoa. A neblina fecha
a vista. Reviso a matéria
ainda pulsante.

Memorizo igualitariamente
o sucesso e o fracasso.

Do sucesso estudo
o início. Do fracasso
conservo a névoa
toldada na visão
do artista.


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* Poema constante de Iguais: poemas (Projeto Passo Fundo; 2013) - Clique (AQUI).

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* Pedro Du Bois [Passo Fundo-RS, Brasil] - Poeta, contista, autor de Iguais (poemas), O senhor das estátuas (poemas), Os objetos e as coisas (poemas) Pedro Du Bois Em Contos (contos). Participa do Projeto Passo Fundo (http://www.projetopassofundo.com.br/), é membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores de Piracicaba. Mantém o blog Pedro Du Bois - Poemas (http://pedrodubois.blogspot.com.br/) e reside atualmente em Balneário Camboriu-SC, Brasil.
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MANHÃ



É um pequeno milagre, esta claridade. 
Os telhados acendem-se como fornalhas, 
permanece vermelha uma parte do céu. 
A noite, se existiu, foi para nós um erro 
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de 
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu; 
a cidade, um corpo branco a levantar-se; 
e esta luz — rasa, rosa, crua — já não um 
pequeno milagre, mas uma evidência.


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* Poema constante de LUZ INDECISA (Oceanos, 2010).
* Post replicado da página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen (Clique AQUI)

│Autor: José Mário da Silva
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