domingo, 2 de março de 2025

A Coisa Obtusa



Untitled - Betty Parsons



Teima em mim
a coisa obtusa.
É a dor.

Sei, isso acontece.
Mas não deveria,
digo, melhor que não fosse.

Aonde o cais,
se o presente
gosta da poeira
que se instala
e só dela gosta?

Teima em mim
um outro eu,
incompleto e exigente.
Ele me sabe, mas não
         do meu sonho.
Ele me quer,
mas não me ama.
É a dor.

Atravesso, devagar,
o íngreme dos dias.
O tempo passa.
Saberei chegar à outra margem?

É carnaval e os bêbados se divertem.
É a dor.
Mas, lá fora, risos a disfarçam
e abraços sujos se divertem
enquanto eu,
educadamente triste,
olho, mas não me alegro.





|Autor: Webston Moura|

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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Sombra e Rabisco



Butterflies - Charles Blackman



Correndo, cada um passa,
olhos ávidos e pés ligeiros.
Ninguém sabe do rio ou de um pescador.
Agarrados ao fazer, rito diário a cumprir,
todos têm no coração esta bagagem
                      que a aridez ensina.

A vida,
esta vida buscada e por nós sonhada
não sabe das borboletas e seu escândalo de naturalidade,
cores elétricas e mornas na luz que incide sobre tudo.
Esta vida, a que existe, é sombra e rabisco.





|Autor: Webston Moura|

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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Desafinados



Untitled (1965) - Shozo Shimamoto



Não estou aqui.
Eu mesmo, não.

Só meu rastro:
escrita anterior à tua atenção.

Sempre é assim:
estamos em desencontros
             que se repetem.

A vida corre, dizemos,
sem maior esperança
de que venha a ser diferente.

Mas o plano era outro,
lembra?

Que houve com nossa vontade de viver?
Que houve com o mundo?

Desafinados,
andamos em frases de areia
               que o vento leva.


|Autor: Webston Moura|

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

À Procura da Beleza



Sincromia (1916) - Morgan Russel



Entre os nãos e as dores, procuramos a beleza. E a vemos entre espinhos. Não são para sua proteção, mas obstáculos a nós postos, para que nos percamos na variedade imensa do que é feio. Entre o cansaço e o escuro, procuramos a beleza. E ela tem sido atacada pelos guardiães do grotesco e do vil. Nisso, pergunto: e os nossos olhos sabem ver?

|Autor: Webston Moura|

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Quatro Laranjas



Four Oranges (1993)
- Donald Sultan



A cor ostensiva
de quatro laranjas.

O laranja.

A alegria que se dispensa,
gratuitamente,
ao desconhecido passante.

Como a verdade que brilhará,
ainda que agora esteja
coberta de lodo e mentira.

|Autor: Webston Moura|

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sábado, 8 de fevereiro de 2025

Sob O Sol Mais Diligente



Evanescence (Red), 2007
- Denise Green



Alguma coisa que seguro às mãos.
Como esta flor, sua imagem de vento,
                           a transformação.

Alguma coisa que se vai sumindo
no escoadouro dos dias,
após a marca em minhas mãos.

Alguma coisa de que,
passado o tempo,
não sei o nome.

E, num dia, de repente,
percebo todo esse caminho de ossos e ausências,
a que nomeamos vida, aridez implacável sob o sol mais diligente.



|Autor: Webston Moura|

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Ritmos Astrais



Ritmi astrali (1916) - Gerardo Dottori


Pulso risonho de estrela antiga. A escuridão em redor é imensa. Eu vejo um recorte do céu e imagino outros olhos, longe, também vendo. O céu nos une. Como a paixão de para cima olhar e sonhar ritmos astrais, cavalgada de cores, tudo isto - o recorte - nos une. Ler estas palavras que surgem como um bando de pássaros, isto nos une, como nossas solidões nesse instante. Agora, lá fora, chove.

|Autor: Webston Moura|

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