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Mostrando postagens de Setembro, 2015

ENQUANTO O VENTO ME RUMINA

A casa vazia, o silêncio; tudo é exílio e exceção. A secura com que o vento tange, suave, salmoura e lassidão. A fotografia a parecer mais antiga, um rosto, um sorriso, um janeiro. A louça, na cozinha, em degredo. Meus passos, seus sons e solidão.



│Autor: Webston Moura│ ______________________

MIRABILIA, MIRAÇÃO

Você me sorri pássaros Me diz
Bálsamos e crisântemos Me ensina Relâmpagos Me faz sonho raiz Plantada em nuvem Sândalo neblina Me transpira poemas tal Hafiz Me esculpe a face em luz ou vento Assina Na minh’alma com tinta d’água giz Assobia azuis sombras opalinas Me leva a passear em seus quadris Me perfumam seus olhos Me calcina Sua presença seu ventre-motriz Você me voceíza predestina Me comunga me francisca de assis Me sana milagra desassassina



│Autor: O Poeta de Meia-Tigela│
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# Poema transcrito de um cartão postal, gentileza d’O Poeta de Meia-Tigela (Alves de Aquino). Blog do autor: http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/
# O Poeta de Meia-Tigela está na segunda edição de Kaya [revista de atitudes literárias]: ● Viagem ao Centro do Nome [O Poeta de Meia-Tigela] ● O Mito de Er [O Poeta de Meia-Tigela] ● Audifax Rios / A Saga Bubalina de Campanário [O Poeta de Meia-Tigela] ● A Noiva [O Poeta de Meia-Tigela]
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O POETASSILGO

O poeta, o que ele é? Uma andorinha. Parente da cigarra,  descendente da flauta, do trovão, da fontainha. O poeta é o quê? Som virado gente.
O poeta? Invenção da Carochinha. História de Trancoso, pretendente com Dom Ratão à mão da Baratinha.
O poeta é quê? Cérebro que sente. Sente dó do diabo e se avizinha do solitário asceta da montanha. Convida o Barba Azul pruma festinha.
Poeta? Abraça o cacto, acarinha Baiacu, porco-espinho, ouriço, amanha-os. O poeta, o que ele é? Uma avezinha.


│Autor: O Poeta de Meia-Tigela│
....................... # Poema transcrito de um cartão postal, gentileza d’O Poeta de Meia-Tigela (Alves de Aquino).
Blog do autor: http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/

Memória

Para Inês


Aprende o infinito, recupera a distraída bússola da alma pouco a pouco sonâmbula, o exausto sabor da tua vida enquanto é mais que um recado de lume no teu corpo, que a promessa da febre no teu sangue, e aprende sobretudo a suspender o tempo quando abraça quem morreu só pra ressuscitar dentro de ti ao cumprir a memória incandescente dos dias que o amor transforma em meses, dos meses que o amor transforma em anos, dos anos que o amor rasga e entrega ao rosto azul do céu e destes versos.

....................... # Poema constante de "Poemas Escolhidos", de Fernando Pinto do Amaral.

A rã da fachada

“una de las cuatro luces que alumbran al mundo” Papa Alexandre IV, em 1254,
sobre a Universidade de Salamanca

Situada às margens do rio Tormes, a espanhola Salamanca é cognominada de “pequena Roma” pelo rico patrimônio histórico que ostenta. São emblemáticos os seus edifícios, monumentos, praças e igrejas. A Universidade, com quase oitocentos anos de existência, também figura nesse rol, com galhardia.
Em 1218, o rei Afonso IX fundou a Universidade de Salamanca. Poucos anos depois, o Papa Alexandre IV declarava que a instituição era uma das quatro luzes que iluminavam o mundo, junto com as universidades de Oxford, Paris e Bolonha.
Há registro que, em 1584, por exemplo, nada menos que 6.778 alunos assistiam às disciplinas ministradas em suas salas. Todos almejando conquistar seus títulos de licenciados ou doutores. E eram estudantes de todas as partes do mundo, demonstrando que a influência de Salamanca já não se limitava ao continente europeu. Comumente vemos citados nomes ilustres que pass…

Outro instante não houve

Outro instante não houve em tua vida fora do longo e lúcido momento em que regavas as palavras vindas do lago azul dos vales araucanos.
Um instante não houve, camarada em que afastasses a tua voz do sussurro da floresta antiga e do ruído das estações de esperança sempre despedidas. E perseguidas sempre.
Providencial operário e artífice: forjaste o sino vibrante que dobra sobre os tetos da pobreza e retine na alma americana em toques infindáveis.
Poeta, acepta nuestra copa, maduro vino de la tierra amanhecida. Campanas solidarias en las minas, em la pampa, em los cerros, em todas partes repercuten las palavras antiguas y nuevas de flor ya sangre.
Rosas blancas alzadas al cielo una bandada de palomas Saluda el Tiempo Nuevo.


........................... # Poema constante de "Neruda: canto memorial" (Imprensa Universitária, 2004). Website do autor: http://www.lucianomaia-memoriadasaguas.com/


│Autor: Luciano Maia│

DEUS E OUTROS QUARENTA PROBLEMAS (Excerto)

Gênio, não tenho. Me empenho. Essas palavras me soam como “Os morcegos não são aves mas voam."

Como evitar, porém, que o poema seja um rio não mapeado, que a vereda cruze... e saia seca do outro lado? Como fazer com que, criado, ele cause a sensação, anterior, de que faz falta, como ao Corcovado faz ─ no Rio Antigo ─ o Redentor? Como criá-lo com a naturalidade com que laranjeiras dão laranjas, e os jardins, em seus delírios, cravos, orquídeas, cachos de lírios, a força da natureza irrompendo, sem planos, com o mesmo ímpeto da Torre do Diabo, ao vir do chão, gigantesca, nos Estados Unidos, há 40 milhões de anos? Sinto-me, no entanto, levado pelo mesmo impulso ─ primitivo, um tanto técnico, artístico, prático, místico ─ dos que ergueram o grande círculo de Stonehenge além das possibilidades e meu problema começa justamente quando não consigo  sequer definir esse... xis ─ versátil, esperto, cheio de êxtases, paichões e ezageros sem nékso, incerto ─ que assume o... compromisso de fazê-lo, …

VAGAR

Dobro a esquina do abraço a lume posto
Doce de amora de ponto desatado
Dispo o vestido no vagar do corpo preencho de prazer o que está vago.


│Autora: Maria Teresa Horta│

SEQUESTRO

Ah! a tua língua
Alongada na sua trança de saliva branda
Tão ácida tão meiga

na minha anca


│Autora: Maria Teresa Horta│

MAIS

Deixa que a maciez adoce os membros
Os torne mais meigos aos abraços
À febre mais afoita que os tornozelos abrem.


│Autora: Maria Teresa Horta│

FASTIO

Às horas, ocasos semeados, sínteses frágeis, volatilidade, vida que se esvai sem nunca ser.
Dizer e redizer o visto sob a luz mais mortal. Repassar a outrem (também fantasma) o cardápio, a dor, o sorriso, gélidas imagens que desaparecerão.
E o amor? E a poesia? E aquela janela donde se via o azul imaginado no canto do pássaro?


│Autor: Webston Moura│

UM PEQUENO ANJO INÓCUO

Há um imenso silêncio, o desta boca que, acossada, recolhe sua matéria. E, nela, não aparece o homem que poderia, mas apenas sua sombra. E este silêncio é uma cidade vazia, uma lâmpada deficiente, um pequeno anjo inócuo,
objeto de gesso e inércia.


│Autor: Webston Moura│

Vidro-me

vocação para aquários é o que me salva do abismo.



Iara Maria Carvalho [Currais Novos-RN - 1980]é graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, atuando como agente cultural em sua cidade, e hoje integra o coletivo Novos Potiguares. Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesia Zila Mamede (Parnamirim/RN, 2006) e obteve a 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody (Curitiba-PR, 2010), dentre outros concursos. Participou de diversas coletâneas de poesias resultantes de premiações literárias e compõe uma das cinco vozes femininas presentes no livro “Por cada uma”, publicado pela editora Una, em 2011. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro livro de poemas, “Milagreira”. O presente poema consta de seu livro “Saraivada” (Sarau das Letras, 2015).

Lúdica

escrevo com a musculatura alegre e oriental de quem descansa sobre o verbo e entre as flores.



Iara Maria Carvalho [Currais Novos-RN - 1980]é graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, atuando como agente cultural em sua cidade, e hoje integra o coletivo Novos Potiguares. Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesia Zila Mamede (Parnamirim/RN, 2006) e obteve a 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody (Curitiba-PR, 2010), dentre outros concursos. Participou de diversas coletâneas de poesias resultantes de premiações literárias e compõe uma das cinco vozes femininas presentes no livro “Por cada uma”, publicado pela editora Una, em 2011. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro livro de poemas, “Milagreira”. O presente poema consta de seu livro “Saraivada” (Sarau das Letras, 2015).

Rosário

tenho trinta anos, um livro de poemas e nenhum colar de pérolas.
pouco me importa se as palavras são inúteis.
abro a esquisita concha e brilho.



Iara Maria Carvalho [Currais Novos-RN - 1980 ]é graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, atuando como agente cultural em sua cidade, e hoje integra o coletivo Novos Potiguares. Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesia Zila Mamede (Parnamirim/RN, 2006) e obteve a 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody (Curitiba-PR, 2010), dentre outros concursos. Participou de diversas coletâneas de poesias resultantes de premiações literárias e compõe uma das cinco vozes femininas presentes no livro “Por cada uma”, publicado pela editora Una, em 2011. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro livro de poemas, “Milagreira”. O presente poema consta de seu livro “Saraivada” (Sarau das Letras, 2015).