Quando criança gostava de viajar de ônibus. Para as crianças, um ônibus era algo realmente especial. E a viagem era uma das aventuras possíveis. Sair de onde se vivia, pegar a estrada, gastar o tempo olhando a paisagem até chegar ao destino, outro lugar, desconhecido e, por isso mesmo, atraente. Assim era. Até porque as vezes em que isso podia ocorrer não eram muitas.
Quem haveria de conduzir a criança a tão fantástica missão? A mãe. Tomar pelo braço, vestir uma roupa, arrumar o que levar, tomar a rua até o lugar de pegar o ônibus, esperar um pouco e, enfim, adentrar o gigante veículo, poderoso, único. Seguir pelo corredor até tomar assento entre outros passageiros, a maioria ou quase todos desconhecidos. Mas, pelas caras e roupas, gente como a gente. Estávamos entre amigos.
No meio do caminho, o que não seria bom? Precisar ir ao banheiro. Nem todos os ônibus tinham esse serviço. E quando tinham, era um tanto temerário usar aquilo. Por questões de higiene mesmo. Afora isso, ficar enjoado era outra coisa que poderia acontecer. E só.
Observava eu que algumas pessoas conversavam durante a viagem, conversavam muito. Outras dormiam que ficavam de boca aberta. Era sua maneira de viajar. Eu, criança, jamais perderia a aventura para o sono. Mantinha-me alerta, olhando as casinhas na beira do caminho, lugares vazios de gente e cheios de mato, tudo era bom e bonito. Eu, em minha pureza, não ainda não via o mundo com o ressentimento e o pessimismo dos adultos.
O ônibus parava no meio do caminho, pegava passageiros, homens, mulheres, crianças. Todos com suas bagagens. Às vezes, o motorista ou o trocador, que era como chamávamos o cobrador, tinha que descer, abrir uma das gavetas para que algum bagagem de maior porte fosse ali colocada. E para mim aquela gaveta enorme era um mistério.
Motorista e trocador se vestiam a rigor, com seus uniformes de gravata bonita. E agiam profissionalmente, sabedores do ofício que eram. Eram geralmente gentis, pacientes e atenciosos.
Transcorrido certo tempo, não muito, chegávamos ao destino, como quem cumpre uma missão. Outra cidade, outra rua, outras pessoas. Terminava a viagem, propriamente dita. Mas para mim, criança, não, que aquele lugar de chegada, sendo outro, era a continuação de tudo, era ainda a viagem.
Hoje, penso no que se perde, ao se perder a inocência curiosa que temos na infância, aonde mínimas coisas, mínimos acontecimentos são a riqueza muita pela qual se é grato. Sinto saudades de tudo, sinto saudades de mim, criança que fui, de minha mãe e de todas aquelas paisagens.
|Autor: Webston Moura|
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Webston Moura, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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