domingo, 25 de setembro de 2016

TUDO É SECRETO

Comove-me a vida, não seu desandar.
A luz, caso se apague, põe-me diligente
a soprar-lhe a força, aquela mais íntima
que os homens cismam, mas não veem.
E, caso quieto e à espera que volte, rezo:
olhos fechados, cheiro de tudo ao nariz,
rogo a antigos e ígneos deuses uma lâmpada.

Comove-me a vida, não sua balbúrdia.
Ando, passos lentos, e leio a placa:
“Coronel Araújo Lima” ─ quem terá sido?
Perto, um vendedor de tapiocas passa
e anuncia seu ganha-pão. Terá filhos? Quantos?

Tudo é secreto.

Comove-me a vida, seus acidentes sentimentais
e toda a possibilidade de abrir portas e janelas.
A pressa com que os transeuntes seguem, não.
Tampouco a fumaça irresponsável de seus carros
e os humores maldizentes com que se corroem.

Uma moça atravessa a rua.
Nas mãos, O tronco do ipê.
De soslaio, olha-me;
depois, olhos ao chão, sorri.
Segreda-me, em plena rua, valsas:
a pequena tatuagem, em voo livre, num dos pés.

Comove-me a vida.
E isso inclui o cão feridento e sujo
que, à porta do mercado,
fala-me olhos de socorro e perdão.
Faz-me pensar na carga de humanidade que trago.


│Autor: Webston Moura
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