quinta-feira, 26 de março de 2020

INOCENTE



Untitled - Albert Oehlen



Teu nome,
o meu,
ali,
aos poucos,
desenho feliz,
que pousamos
no eterno.

Derrubaram a árvore
e construíram uma locadora.
E agora, depois de umas dez utilidades,
só o pequeno prédio fechado,
cadeado, corrente, escuro, silêncio.

Dá-me vontade, sabe, de compra-lo
e derrubar tudo; fazer voltar o vazio
e, nele, plantar outra árvore, uma muda,
esperar crescer e, novamente, pousar nossos nomes.

Sei, é loucura isso.
Mas, sabe, dá-me vontade exatamente disso,
de ter toda coragem que temos quando jovens
e aquela sensação de que nada nos deterá,
de que toda revolução, do amor ao mais, é possível
e que tudo depende apenas de dar um passo a frente.

Dá-me vontade de ser inocente, de novo.



│Autor: Webston Moura│

A Porta Que Não Se Abre



Untitled - Hassan Massoudy



A porta que não se abre,
use-se de sabedoria alta ou popular;
use-se de força ou jeito.
A porta que não se abre,
como a presença mais incômoda,
mais que areia nos olhos;
mais que o mais imaginável obstáculo.

Ou seria tudo exagero,
vício do olhar,
máquina boba de um repetir-se,
canto alongado e perdido diante da parede?



|Autor: Webston Moura|



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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Araibu e Só Um Transeunte.
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sábado, 21 de março de 2020

ESTAÇÃO VIDA




As ruas vazias.
Novamente, pode-se ouvir o vento
e a naturalidade de tudo o mais
que foi exilado pela nossa ruidosa presença.

Das janelas, uma alegria misturada com uma tristeza
e uma espancada esperança que se tenta segurar às mãos.

Diz-se que amanhã é (será) outro dia,
mas sabe-se que ainda há uma dor a ser percorrida.

É irônico que estejamos nisso tão juntos,
mas não possamos sequer apertar as mãos uns dos outros.

Entrincheirados, tentamos nos proteger do inimigo,
esta coisa invisível, silenciosa e disciplinada.



│Autor: Webston Moura│

terça-feira, 17 de março de 2020

"A claridade alastra..."






A claridade alastra
- no teu cabelo é sempre sul

a mão pousada na almofada
como se lhe tivesse escapado
um animal filtrado pela noite

esse teu sono tão satisfeito
de ignorar a vileza
dos que fazem o dia

respira
a minha vigília durará ainda
o tempo de dares por terminado
o filme supremo
o bocejo corolário

não há pressa

beijar-te-ei a face
como se me tivesses salvado


│VASCO GATO, in UM PASSO SOBRE A TERRA (Língua Morta, 2018)
│Fotografia: Cloaked Beauty, de Baden Bowen

MENTIMOS







Mentimos dizendo sermos poucos
somos muitos e estamos presentes
                                  desde sempre

nossa natureza
nossa maneira
nosso gênese

avançamos como conquistadores
      protetores insinuados
                   ladrões camuflados

insuflamos exércitos em nosso benefício
calamos multidões em divisões e trocas
fazemos sofrer o irmão no que nos toca

mentimos nesta pouca idade
o pão e a carne conseguidos
no esforço da pilhagem.

(Pedro Du Bois, inédito)



│Do blog do autor: http://pedrodubois.blogspot.com/