terça-feira, 27 de outubro de 2020

Visão Historiográfica da Etnomatemática como empreendimento humanista - Ubiratan D´Ambrosio





Do canal Matemática Humanista

ENQUANTO CHOVE



Drops of Rain (1903) - Clarence White





De onde olho a chuva,
a uma distância de quase me molhar,
escutando a natureza inteira derramar-se,
paz.

Desce, devagar, o tempo,
e eu nem o percebo,
como também não percebo
a força enorme e inteira
de cada planta crescendo.

Aí esteja, penso, a vida,
inteira vida,
sem esses remendos brutos
que fazemos.



│Autor: Webston Moura│

.....................................................................
Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
..............................................................................



"No início o resquício" - excerto de poema de Pedro Du Bois



[...]


No início o resquício
surpreende quem se aproxima
trazido pelo imponderável.

amanhã a repetição
contempla: calores
abrasam a finitude
          até as cinzas
            se fazerem
          pedras logo
                adiante.

A possibilidade torna
indevido o esforço.

          Desacompanhados
          olhos perduram
          sobre a presa:

conheço nos hábitos
a certeza do propósito.

Com as luzes
         apagadas o predador
         sente cansaço: a presa mede
                                      distâncias
                                      com olhos
                                    diagramados.

Em cada decisão o erro
se confunde: onde os olhos
se desinteressam?

Em toda pergunta
remanesce a dúvida
pelo incomparável.

           Assim o destempero
se reapresenta em murmúrios
                            e palavras
                            e gritos
                            e atos.

[...]


..........................
Excerto de O Homem Despegado de Olhos e Outros Poemas, Projeto Passo Fundo, 2019, de Pedro Du Bois, pags. 14, 15 e 16.


------------------------
Leia também:

 _____________________________
Pedro Du Bois – Poeta e contista. Passo Fundo, RS, 1947. Residente em Balneário Camboriú, SC. Vencedor do 4º Prêmio Literário Livraria Asabeça, Poesia, com o livro Os Objetos e as Coisas, editado pela Scortecci Editora, SP. Participante do Projeto Passo Fundo. Blog: http://pedrodubois.blogspot.com/.

DESCONSOLO



Senhor,
sei que bem não nos vemos,
apesar do trajeto comum,
esta rua nossa descalça de pavimento,
este nosso conviver cego, silencioso,
diria mesmo alienado
– eu do senhor e o senhor de mim
e nós, suponho a vós também, do mais
que poderíamos ser nesta vida.

A dureza nos toma, sabemos,
a sina de pagar por tudo
a outros senhores que nos querem
apenas braços, votos, disciplina
e docilidade escrava, coisas amansadas
que somos, vozes amiudadas.

Senhor,
Rogo-vos nada mais
que a escuta a este lamento!
E se tiverdes um, também o escutarei.
Quem sabe, canção se faça entre nós,
ao menos para não nos doermos sós,
tão sós, ensimesmados de medo.

Repara no cão,
abandonado bicho!
Cata aqui e ali.
Algures consegue água,
um pouco de comida
e até a atenção dalguma alma caridosa.
Aquele cão repleto de ausências,
quem é senão nós?


 │Autor: Webston Moura│

Poesia



Muitos homens

nunca lerão um poema.

São homens
que bebem café,
tomam banho de rio,
têm filhos e um cachorro.

Poucos homens
conhecerão meus versos.

E o que direi a esses homens
nos meus versos?

Que também bebo café?
Que tenho saudade de casa?
Que há noites em que fico sem dormir?

Quem sabe, em vez de poemas,
talvez melhor seja
telefonar a cada um desses homens.

Há algo na poesia
que não se pode contar?

Aguardo respostas
para ajudar a rimar.

 

_____________________


Sérgio Queiroz de Medeiros – Mossoroense-RN, 1981. Autor de “Um lugar azul” (2009), “Para ler na chuva” (2012). O poema acima faz parte do livro “Guardados”, publicado pela Sarau das Letras, em 2019. Um blog: umlugarazul.