quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Folha de Papel



Afundo-me numa folha de papel.
O meu corpo submergido
bebe a seiva da árvore.

Renasço à flor da pele.
Os meus olhos giram
o submundo da superfície.

Com o odor atenta-me o vento
do fim das chuvas.
O sol renasce um cravo
que liberta...


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# Poema constante de Rio de Doze Águas (Coisas de Ler Editora, 2012)


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Cláudio Cordeiro - Nascido em Coimbra, natural de Mortágua, poeta e estudante universitário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, é autor de três livros, "Lágrimas da Alma" (Corpos Editora, 2010), "Olhos de Terra" (Corpos Editora, 2011) e "Um Tudo Nada Água" (Lua de Marfim,2011).
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CASA




A antiga casa que os ventos rodearam
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam

A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o íman dum céu lunar e frio

Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio



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# Poema constante de GEOGRAFIA (Caminho, 2004)

│Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen│
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

URGENTEMENTE





É urgente o amor
É urgente um barco no mar


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.





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# Poema constante de AS PALAVRAS INTERDITAS-ATÉ AMANHÃ (Assírio e Alvim, 2012)
* Postado originalmente na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen - clique (AQUI)

│Autor: Eugénio de Andrade│
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MENINA




luas 
praias de querer
ao longo dos meus braços
afastados pelo coral das rochas
duas
*

uma menina chupando
um rebuçado
descalça
de ter sol nos olhos
*

alguém chora o sentir
do mar
nos flancos das corças
e dos barcos
*
duas
as vezes que conto
pelos dedos
- sol e água
espelhos verticais
no sentir das margens
nevoeiro de noites
nuas




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* Poema constante de ESPELHO INICIAL (1960) e POESIA REUNIDA (D. Quixote, 2009)
* Post originalmente publicado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen - clique (AQUI).

│Autor:  Maria Teresa Horta│
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O HOMEM SENTADO

               Sentado
em sua impassível  cadeira de balanço
defronte a casa,
                             aquele velho
                             é só um velho,
um escombro
que não perturba
as infinitas claridades do dia.

             Sentado,
            imóvel,
é um campo inerte
de tácito silêncio
que não produz
um mínimo pulso
no coração voraz das coisas.

               Seria.

Pois eis que uma mão
toca,
        abre esse campo,
        traduz em caos e inércia;
e o que antes
não-era,
não-estava,
                     pulsa,
                     devasta
o equilíbrio límpido do branco ―

penetraste, Poeta,
no arcaico engendro da vida!



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* Poema constante de O Pensador do Jardim dos Ossos (Expressão Gráfica e Editora, 2005)
* Sobre Dércio Braúna, acesse este (LINK)
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│Autor: Dércio Braúna│
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