terça-feira, 29 de setembro de 2020

SEM OUTRO INTUÍTO





Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
 
│ LUÍS MIGUEL NAVA, in VULCÃO (Quetzal Editores, 1996); in POESIA (Assírio & Alvim, 2020)
│Fonte: Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen 
 │Fotografia ©Adriano Basto

sábado, 22 de agosto de 2020

Medo





Aquela estranha sensação,
às cinco da tarde,
a casa quase vazia,
você só,
um café na cozinha,
todos os sons brotando singularmente,
o vento nas cortinas,
um pássaro que,
de repente,
para de cantar,
a campainha muda,
também mudas as casas da vizinhança,
nem cachorro,
nem carteiro,
muito menos o caminhão de gás
ou o entregador de água mineral,
menos ainda polícia e sirene
ou o que o valha,
nada de nada,
só você e um sisudo relógio de parede.

Sem mais,
sem que ninguém ligue,
a TV ressoa, lá de cima,
do quarto último,
algum jingle com voz de criança.


│Autor: Webston Moura│

│Imagem: Sem Título, de Lee Bontecou



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Webston Moura
, administrador deste blog, é Tecnólogo de Frutos Tropicais, poeta e cronista. Natural do Ceará, Brasil, mora no município de Russas, na região do Vale do Jaguaribe. Aprendiz de Teosofia, segue a Loja Independente de Teosofistas - LIT. Tem apreço por silêncio, música, artes plásticas, bichos e plantas. É também administrador dos blogs O Caderno Livre e Só Um Transeunte.
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sábado, 15 de agosto de 2020

LIBERDADE


Fragment de Liberté - Jacques Hérold


Se apenas uma janela

onde paredes impedem,
liberdade,
ainda que pouca,
é alimento requerido.
Como a nesga de luz
clareando o calabouço
ou a pequena palavra
de um homem que se levanta.

Vai-se um barco,
só e devagar,
na água mansa.
     Não assusta,
     não conquista,
     não toma,
     não guarda,
     não deturpa
     − apenas atravessa.

Liberdade, ainda que só um fio:
a lua jorrando mansamente seu azul
sobre o carnaubal.


│Autor: Webston Moura│

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

ENFIM, O SOL


The Sun - Ravi Bedi



Levanto-me num dia comum,

vou ao quintal: o sol, sinto-o
e, de repente, penso ser este o
ente mais antigo que posso tocar.
Do que me vem à mão, se assim o posso,
o sol, que já aí se espraia desde há muito,
é um velho de velhice extrema,
com olhar silencioso e voraz
sobre o que a Vida lhe dispõe.

Que de mais estranho poderia
senão aperceber-me de minha
tão entranhada cegueira,
a ponto de, só hoje, nesta geral manhã,
ter me dado conta do sol,
este que pulveriza o trigo e o cão,
o vento e a solidão, o rio e a cidade?


│Autor: Webston Moura│

CONFISSÃO QUASE PUERIL AO SOM DE ENTUSIASMADOS PARDAIS


Imagem retirada do Google Images



De vez que poemas são pássaros,

no dizer doutro poeta,
aquele de alma brincante,
dou-me a escrever,
ainda que iludido
de voos que pouco ou nada
causem ao mundo.

Seria pior não fazê-lo,
dada a tristeza de ser, 
então, calada voz
e mais ainda me reduzir a uma triste peça
deste engrenagem que é a vida
do jeito que e humanidade me legou.

Que me resta,
eu que gosto de música,
mas não de festa,
senão este pouco falar,
alento certo para caminho errante?


 │Autor: Webston Moura│