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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

SAIU PARA DANÇAR

O dia último de um ciclo, pó que se deposita, tempo vivido, passagem.
Amanhã é outra história, não mais este faminto canto de entranhas insaciáveis.
Assim, em plena tarde de um dia comum peguei minha bagagem e viajei!
Saiu para dançar! ─ responda a quem perguntar.


│Autor: Webston Moura│ ____________________

Arcanos Grávidos II

Ainda que discreto, fulgia um âmbar, cor bonita de sonhar-se.



Sou até onde não vejo, que a vastidão é do humano. Meu olho, infante diante das eras, sabe-me um pouco, não o todo. Mas, ainda assim, por um pulso que me toma, lápis-lazúli incendiado, percorrem-me visões emergentes.
Filho do Universo, trago a semente a estalar o sempre-querer que me habita e que me quer crescente.
Sou o claro, o escuro, o que a palavra não desdobra, o sinal-sigilo na pedra, a orla, a ilha, a água, o rugido, o balido, a contrição, esse mar de estrelas esperando olhares.

│Autor: Webston Moura│ _____________________

CONTRA O RELÓGIO

Vem o poeta e suas flores demoradas. De dentro desta máquina de dias, lembra-nos da moça sem nome. Coloca esta moça no meio do nosso equilíbrio. Aí, já nos nascem cais e tons de sépia, a justeza das calçadas observadas em abril, o reflexo na vidraça: o copo,
                                        frágil,
                                        no ar,                                      caindo.
Vem o poeta e nos propõe irmos à praia, ao que lhe respondemos estamos muito ocupados com as junturas que a sobrevivência nos impõe fazer.
               É que somos o livro inutilizado pelo gosto da rotina                e também não sabemos habitar flores demoradas.                Nosso tempo é dado em dinheiro, que compra a vida.                O reflexo na vidraça, o copo, frágil, no ar, caindo, não!                E nenhuma moça nos embala nesta máquina de dias.

│Autor: Webston Moura│ ______________________

ASA E VOO

Fala-se de amor. A canção popular se gasta nisso.
A custo, léguas depois, oceanos de cegueiras depois, já na clareira conseguida, começamos a amar.
É que já abrimos a mão e a fizemos asa.
É lá, oculto céu, o lugar onde o amor não sabe o medo. Por isso, asa e voo, o amor;                              medo, não.
(É o que diz a canção)


Fiquei mudo ao lhe conhecer O que vi foi demais, vazou Por toda selva do meu ser Nada ficou intacto ─ Djavan, “Boa Noite”


│Autor: Webston Moura│
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SOBRE NOSSAS INABALÁVEIS CONVICÇÕES

Amanhã, bem amanhã, ainda estando aqui, perguntaremos sobre hoje.
Nossos olhos, que o tempo terá temperado, o que nos dirão senão de um profundo arrefecimento?
O presente, por doer-nos tão enorme, parece inacabável e sólido,                           quando não:      matéria perecível que é, é-nos fruto derretendo-se ao calor da fome.           Mas que seja fome para uma refeição,                                         não para um engano.

Não carecemos do amanhã já pronto, para sabermos, em olhos claros, o dia que se opera agora.



│Autor: Webston Moura│ ______________________

Rua do Entardecer

Se não bastasse chamar-se o bairro O Mucuripe ─ nome de peixe? Nome de vento?, nome bonito
tem lá um beco que não tem nome, tem apelido que está no título...
Ruas assim não é para ter ordem nenhuma placa, não ter nem CEP,
só uns velhinhos umas moças sonsas e alguns moleques.




│Autor: Carlos Nóbrega│ ......................... Poema constante de “Canto Aceso” (Lua Azul Edições, 2016)

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DIANTE DA CLARIDADE

O mais assustador é a luz, não o escuro. Como uma flor, a luz nasce; o olhar, não.



Carrego a velha pessoa que sou, lembrança e peso, passado. Tal à maioria, creio, carrego ossos imprestáveis, óbices cultivados (por hábito e inércia).
O tempo me cobra oxigênio ao corpo, nova respiração, uma fagulha que se possa acender num instante e em todos. O tempo me cobra ver, querer ver,                          sem delongas, agora. O tempo me quer à mão uma candeia diligente, um gesto de abrir janela e porta,                                            mas não para trás.
Carrego os olhos de imagens já mastigadas, maceradas e recuperadas em outros fantasmas. Não as quero!
Carrego a consciência disso: a violência do revés sempre revisitado.
Sou um homem, a carga de saber e ignorância ajustada ao gatilho de arrepender-se ou continuar.
Sou um personagem: o poeta, parteira e parturiente esforçando-se para fazer a criança chorar
─ à luz do sol mais incandescente.

│Autor: Webston Moura│
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PARA UM CORAÇÃO DE OLHOS ABERTOS

Diz-se que o homem, mesmo em multidão,                     é criatura só e de destino trágico. Pela Terra, vagando, ilusões o acompanham desde os remotos aos atuais dias.      E ele sofre, danado em sua cabeça, enlouquecido em seu corpo.
Chegaram então os dias de hoje com essas máquinas de juntar olhares, para que pudessem sofrer juntos,                          sem solução a vista.
Chegou o tempo do desespero ampliado.
E vieram igrejinhas e capitalizações, nova ordem, venenos antigos repaginados, entretenimentos, miragens e a fera (sempre) refeita em cada um, para que se operasse o milagre da autodestruição                                                                       coletiva.
Não seria o caso, ainda que com pouca ênfase, de se dar uma chance de estarmos errados quanto aos vaticínios de  fim de mundo? Não seria o caso de vermos nosso olho mesmo como a máquina modeladora do que, em nós, sangra,                                                                                           dói-se e ago…

POEMAS DE PEDRO DU BOIS

1 O exemplo determinado ao fato ─ inaudito ─ repele a mão do feitor. A liberdade temporária na indefensável manobra de arrependimento: não se pertence. Obreiro determinado               no que não lhe ocorre escorre pelo corpo o suor.

2 Desde criança sabe do atrevimento no abordar o motorista e o carro. Estender                              a mão e entregar                              ao pai à mãe                              ao padrastro                              ao irmão                              ao chefe                              o saber acumulado                              em pouco dinheiro.
A dor não repartida em fome de noites mal dormidas na subserviência e medo.

3 Brinca inocências. Joga ao alto a bola ultrapassada. Dribla e arremessa. Rebate e bate.
Apanha na luta durante o recreio. Chora                                     mesmices.
O objetivo da revanche no primeiro estágio da revolta.
                       Trabalho                        recém-começado.

│Autor: Pedro Du Bois│ ................…

UM POEMA DE LÍLIA TAVARES

Que fazer do álamo do teu sorriso Se perdi a voz das Folhas do teu rosto?
Que ouvir do eco da tua voz Se o portão pesado da Memória nos devolve Apenas os ramos nus Das tardes sem sentido?
Quem vou beijar quando a pele Do meu desejo Frágil e líquida se evapora entre os dedos?


............................................ Poema que abre o tomo “Desaguar do Desejo” do livro “Evocação das Águas" (Seda Publicações, 2015). O livro, em capa dura, tem ainda ilustrações de Carmo Pólvora e apresentação de Carlos Eduardo Leal.
...................................... # LEIA TAMBÉM: ● LÍLIA TAVARES, in "EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS" ● [É por ti que se enchem os rios], poema de Lília Tavares ● Manhã branca [Lília Tavares] ● Deita-te comigo [Lília Tavares] ● Sei de uma ilha de ventos [Lília Tavares]

# Contatos com autora podem ser feitos através de seu perfil no Facebook [https://www.facebook.com/lilia.tavares.3] ou na página Quem Lê Sophia de Mello Breyner Andresen [https://www.facebook.com/QLSMBA]
# Lília Tavares c…

É UM POETA ANDANDO DE BICICLETA

Tudo é política! ─ brada o apaixonado.
E o que é todo esse espaço adensado de sem-nome?
É um poeta andando de bicicleta! ─ responde a moça ruiva da janela azul.

│Autor: Webston Moura│ ________________________

FILME DE AÇÃO

Depois de muitas explosões, carros e prédios incendiados,     tiros com todo tipo de arma, a cidade não está salva, mas destruída.
Nossos heróis não mais existem. Restaram essas sobras de hospício que têm pesadelos e gostam de esfolar.
Amor, justiça e generosidade são coisas do passado. Importa o impacto, a linguagem de videoclipe e muitos corpos espalhados.
Parece até a vida real.
E aquele cavaleiro, taciturno e correto, capaz de amar a uma donzela, já não caminha mais contra o por de sol (cena derradeira, quando o letreiro subia). O que dele se sabe é que ama a uma lâmina                                                     e não tem mãe.
Parece até a vida real.



│Autor: Webston Moura│ _______________________

AS MÃOS

Olhar as mãos: sabê-las; cuidá-las. Destinos são. As duas, poder imenso.



Herdamos os que nossas mãos seguram: o abraço; a dor; a vontade ressuscitada, sempre.
O homem é frágil, o homem é forte. O homem é a escolha, diariamente.
O que cabe num coração? De melhor, o que cabe?
Aqueles dias são hoje, vidas como águas que se misturam no tempo. E o tempo é aquático.
Aqueles dias são para as horas esticadas, as horas em que pudermos apenas estar. E tudo isso é uma onda infinita de eternos.
Herdamos o que nos damos. Sejam, pois, navegações.


│Autor: Webston Moura│ _______________________

SOB A LUZ

Vi um lírio martagão na encosta do monte. Novamente fui menino e pude sonhar.




Aqui deponho as rosas ásperas com que os homens se ferem. É a curva necessária, antes de partir. Há os que ficam; seus trabalhos tardam. Há os que comigo partem, silentes.     Nosso destino é incerto, mas necessário. Abre-se o mundo, devagar, para o dia da nova palavra e do novo gesto.
Aqui deponho o que me dás, as mesmas rosas, por anos a fio (o cálcio a prender o sempre-mesmo de ossos mortos, vida repetida que não mais me cabe).
Olho a estrela-guia no céu tranquilo, bússola dos sonhadores de todos os tempos. Ergo velas, preparo suprimentos, e me vou.
Desejo a humana, humaníssima terra, larga, funda e próspera, promessa que me faço. Nela, os deuses anelados ao meu coração.
(E um raio de luz ilumina um lírio, um filho extremo de uma família eterna)



│Autor: Webston Moura│ ______________________