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Mostrando postagens de Setembro, 2016

TUDO É SECRETO

Comove-me a vida, não seu desandar. A luz, caso se apague, põe-me diligente a soprar-lhe a força, aquela mais íntima que os homens cismam, mas não veem. E, caso quieto e à espera que volte, rezo: olhos fechados, cheiro de tudo ao nariz, rogo a antigos e ígneos deuses uma lâmpada.
Comove-me a vida, não sua balbúrdia. Ando, passos lentos, e leio a placa: “Coronel Araújo Lima” ─ quem terá sido? Perto, um vendedor de tapiocas passa e anuncia seu ganha-pão. Terá filhos? Quantos?
Tudo é secreto.
Comove-me a vida, seus acidentes sentimentais e toda a possibilidade de abrir portas e janelas. A pressa com que os transeuntes seguem, não. Tampouco a fumaça irresponsável de seus carros e os humores maldizentes com que se corroem.
Uma moça atravessa a rua. Nas mãos, O tronco do ipê. De soslaio, olha-me; depois, olhos ao chão, sorri. Segreda-me, em plena rua, valsas: a pequena tatuagem, em voo livre, num dos pés.
Comove-me a vida. E isso inclui o cão feridento e sujo que, à porta do mercado, fala-me olhos de socorro e perdão…

CONVERSAS

Não a conversa dos vizinhos pelas janelas
abertas
nos assuntos
de todos os dias
a conversa ampliada em gestos e sorrisos
na mímica
  e música
não a descoberta da vontade em palavras imaginadas
nos mistérios
e desvendadas
em conversas
de vizinhos
no que acontece
diariamente.

│Autor: Pedro Du Bois│ ........................ POEMA retirado do blog do autor: http://pedrodubois.blogspot.com.br/
Pedro Du Bois, poeta e contista. Passo Fundo, RS, 1947. Residente em Balneário Camboriú, SC. Vencedor do 4º Prêmio Literário Livraria Asabeça, Poesia, com o livroOs Objetos e as Coisas, editado pela Scortecci Editora, SP. Tem publicado pela Corpos Editora, Portugal,A Criação Estética; Pela Sarau das Letras, Mossoró, RN,Seres; Pelo Projeto Passo Fundo, Brevidades,Via Rápida,Iguais eEm Contos; Pela Editora Penalux,O Senhor das Estátuas. Blog [http://pedrodubois.blogspot.com.br/].

O SILÊNCIO

Vozes do mar, de ribeirinhos claros, de árvores ameigadas pela aragem,
de montes e de vales e de ninhos,
de penedos e de ervas e bichinhos,
respirações suaves da Paisagem…;
(uma formiga arrasta um grão: entanto, há de o seu peso ir a arrastar no chão, e esse peso, a arrastar, será um canto…;
vai à roseira a borboleta ansiosa: e ao sugá-la, nos rápidos instantes,
há um barulho musical na rosa
e outro naquelas asas palpitantes…);
cantos do Sol amanhecendo a aurora; vozes do Sol enchendo o meio-dia,
ais do Sol pela tarde gemedora…;
vozes-sopros e sons crepusculares que evaporais e adormeceis nos ares,
onde tudo dorme e tudo erra:
as dos frutos crescendo nos pomares,
a das raízes a furar a terra;
as dos astros que vão, longinquamente,
rompendo o ar, nas órbitas traçadas,
e donde nos virão (a alma as pressente)
outras vozes, também, adelgaçadas…;
fala do Todo, línguas do universo, cujos diversos timbres são iguais:
- sois vós, no vosso murmurar disperso, que este Silêncio universal criais.
Apenas no Silêncio, na bele…

UMA PEQUENA ROSA DE QUELUZ

Amor, este cais de setembro a sol onde a tarde me põe aos ventos.
Olho os teus olhos
(yeux papillon),
luz negra no horizonte
de continentes tranquilos.

Quero a liberdade dos bichos,
acordar orvalho, cavalgar raios,
dispor de espaços

                         vazios.

Ao canto da página, tua escrita:
as fadas existem; estrelas, eu as leio.
Depois, fecha os olhos e respira.
Da rua, pão e outros cheiros.
Uma sereia sobre uma rocha.
As ondas arremetem. Espuma.
Vinho, corpo, ira.
Que os Visigodos não nos encontrem!


│Autor: Webston Moura│ _______________________

ESTA INCONVENIÊNCIA CONTRA A ROTINA

Tudo é interino, inclusive nós. Esta noite passa; a lembrança, talvez. O perfume no lenço; o vento, perfeito. João Bosco canta Desenho de Giz. As luzes, laranjas mornas no topo dos postes, exibem o véu úmido de uma quase-neblina.
Dizem que, lá fora, um povo se debate, e é verdade. Mas, pausa que o sonho requer, o amor é esta inconveniência contra a rotina.
O homem é pouco; o tempo, idem. Olha o rouxinol desenhando lilases na lua!


│Autor: Webston Moura│ _______________________