TUDO É SECRETO

Comove-me a vida, não seu desandar.
A luz, caso se apague, põe-me diligente
a soprar-lhe a vida, aquela mais íntima
que os homens cismam, mas não veem.
E, caso quieto e à espera que volte, rezo:
olhos fechados, cheiro de tudo ao nariz,
rogo a antigos e ígneos deuses uma lâmpada.

Comove-me a vida, não sua balbúrdia.
Ando, passos lentos, e leio a placa:
“Coronel Araújo Lima” ─ quem terá sido?
Perto, um vendedor de tapiocas passa
e anuncia seu ganha-pão. Terá filhos? Quantos?

Tudo é secreto.

Comove-me a vida, seus acidentes sentimentais
e toda a possibilidade de abrir portas e janelas.
A pressa com que os transeuntes seguem, não.
Tampouco a fumaça irresponsável de seus carros
e os humores maldizentes com que se corroem.

Uma moça atravessa a rua.
Nas mãos, O tronco do ipê.
De soslaio, olha-me;
depois, olhos ao chão, sorri.
Segreda-me, em plena rua, valsas:
a pequena tatuagem, em voo livre, num dos pés.

Comove-me a vida.
E isso inclui o cão feridento e sujo
que, à porta do mercado,
fala-me olhos de socorro e perdão.
Faz-me pensar na carga de humanidade que trago.


│Autor: Webston Moura
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CONVERSAS

Não a conversa dos vizinhos
pelas janelas
abertas
nos assuntos
de todos os dias

a conversa ampliada
em gestos e sorrisos
na mímica
  e música

não a descoberta da vontade
em palavras imaginadas
nos mistérios
e desvendadas
em conversas
de vizinhos
no que acontece
diariamente.


│Autor: Pedro Du Bois
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POEMA retirado do blog do autor: http://pedrodubois.blogspot.com.br/

Pedro Du Bois, poeta e contista. Passo Fundo, RS, 1947. Residente em Balneário Camboriú, SC. Vencedor do 4º Prêmio Literário Livraria Asabeça, Poesia, com o livro Os Objetos e as Coisas, editado pela Scortecci Editora, SP. Tem publicado pela Corpos Editora, Portugal, A Criação Estética; Pela Sarau das Letras, Mossoró, RN, Seres; Pelo Projeto Passo Fundo, Brevidades, Via Rápida, Iguais e Em Contos; Pela Editora Penalux, O Senhor das Estátuas. Blog [http://pedrodubois.blogspot.com.br/]. 

O SILÊNCIO

Vozes do mar, de ribeirinhos claros,
de árvores ameigadas pela aragem,
de montes e de vales e de ninhos,
de penedos e de ervas e bichinhos,
respirações suaves da Paisagem…;

(uma formiga arrasta um grão: entanto,
há de o seu peso ir a arrastar no chão,
e esse peso, a arrastar, será um canto…;

vai à roseira a borboleta ansiosa:
e ao sugá-la, nos rápidos instantes,
há um barulho musical na rosa
e outro naquelas asas palpitantes…);

cantos do Sol amanhecendo a aurora;
vozes do Sol enchendo o meio-dia,
ais do Sol pela tarde gemedora…;

vozes-sopros e sons crepusculares
que evaporais e adormeceis nos ares,
onde tudo dorme e tudo erra:
as dos frutos crescendo nos pomares,
a das raízes a furar a terra;
as dos astros que vão, longinquamente,
rompendo o ar, nas órbitas traçadas,
e donde nos virão (a alma as pressente)
outras vozes, também, adelgaçadas…;

fala do Todo, línguas do universo,
cujos diversos timbres são iguais:

- sois vós, no vosso murmurar disperso,
que este Silêncio universal criais.

Apenas no Silêncio, na beleza
do seu falar, a alma se extasia:

harmonioso como a luz do dia,
o Silêncio é a voz da natureza.

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│Autor: Afonso Lopes Vieira

Da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 155-157.

UMA PEQUENA ROSA DE QUELUZ

Amor,
este cais de setembro a sol
onde a tarde me põe aos ventos.

Olho os teus olhos
(yeux papillon),
luz negra no horizonte
de continentes tranquilos.

Quero a liberdade dos bichos,

acordar orvalho, cavalgar raios,
dispor de espaços

                         vazios.


Ao canto da página, tua escrita:

as fadas existem; estrelas, eu as leio.
Depois, fecha os olhos e respira.
Da rua, pão e outros cheiros.
Uma sereia sobre uma rocha.
As ondas arremetem. Espuma.
Vinho, corpo, ira.
Que os Visigodos não nos encontrem!


│Autor: Webston Moura
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ESTA INCONVENIÊNCIA CONTRA A ROTINA

Tudo é interino, inclusive nós.
Esta noite passa; a lembrança, talvez.
O perfume no lenço; o vento, perfeito.
João Bosco canta Desenho de Giz.
As luzes, laranjas mornas no topo dos postes,
exibem o véu úmido de uma quase-neblina.

Dizem que, lá fora, um povo se debate, e é verdade.
Mas, pausa que o sonho requer,
o amor é esta inconveniência contra a rotina.

O homem é pouco; o tempo, idem.
Olha o rouxinol desenhando lilases na lua!


│Autor: Webston Moura
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