Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2016

COM UM EQUINÓCIO NA BOCA

Tudo que se passa aqui Não passa de um naufrágio


Frágil, a transparência do vidro. Meu olhar se repleta de sua queda, uma jarra posta sobre uma toalha branca numa mesa escura de madeira antiga. Ao fundo, uma janela também de vidro que permite imaginadas e frágeis garças. A jarra cai e se despedaça no chão. Depois, o silêncio perpassado de luz, os cacos aquietados e disformes, a lembrança da harmonia anterior.
A vida, que assim se parece (a vertigem antes das quedas), amo-a como às flores fortes e rúpteis. Dou-me a estes entalhes de palavras discretas, as quais se possibilitam no mundo onde vivo, para que não me possa desaparecer o gosto de saber-me aqui, este aqui passageiro, única terra onde vim ser bárbaro e, simultaneamente, terno.
Escuto, em anil, uma voz de mulher: “Gosto muito da palavra equinócio,          pois me lembra de coisas que não diviso          senão com os olhos fechados.”


___________ NOTA: 1. A epígrafe são versos da música "Água" de Djavan, que se encontra neste disco: [link: https…

ASSOBIAR UMA CANÇÃO PARA UM DIA LEVANTADO

A luz, excelsa em seu tranquilo passeio, deita ao dorso das folhas das caras-de-cavalo o que a meus olhos incidirá num verde-vivo. Ainda que a vida-de-todo-dia esteja maldita (nos noticiários, nas esquinas, nos lares), não posso adiar os pequenos milagres que me comovem, como esta luz e este verde, sumo e findável instante de passagem em que, vivo de uma vida plena, sinto. E, pelo visto, sentir tem sido um obstáculo para os que se alimentam de pressa e notícias, não para mim. Digo-te, amigo, que há um pátio num elevado de um prédio deserto de uma cidade sem nome. E, nele, um piano branco e alguém que toca. Digo-te, amigo, que há, em redor do pátio, vasos de barro, todos úmidos de frescor e de caras de caras-de-cavalo. A um canto, uma jovem de olhos cor de avelã cuida de um aquário e guarda sigilosos saberes das artes de amar. Ao erguer ao céu a suavidade de seu rosto, vê abrir-se em voo (de dentro de uma estrela) um pássaro. No ínterim deste conforme, sou todos os homens que carrego. …

UMA FLOR INÚTIL AOS ABUTRES OLHOS

Tumulto é o nome do mundo. Vê que já não mais podemos ― corpos exaustos, exangue voz ― supor esperanças sobre esta pedra.
E gritamos!
Na noite escura, tiros. Mesmo o poema, suposta luz em que, à força de palavra-gérbera, se põe a fecundar alguma graça, não pode contra o furor; nada pode erguer senão braços enfermos de nonsense e deslavra, ídolos de areia.
É findo o último azul. E, ao fim da tarde, depois de um dia-igual, insolene e louca, canta uma ave negra o seu negro canto, arame estendido na eletricidade.
Eis a nossa casa, soez paragem que se abarrota de notícia e caos. Nela, estamos juntos, embora sós.

NA MOENDA DOS DIAS

Entre ossos, alguma graça.


Um ônibus atravessa meus olhos, como aos do cão cor de naufrágio, que também segue. A rua, interditada de perigos, já não me abraça senão de aflição e pressa. Quem vem lá? Um cidadão ou um desencontro? Uma senhora, lenta, carrega sacolas (medos, fardos, noites mal dormidas, alguma alegria) e, a custo, consegue distinguir o sinal ─ certo? selado? irrisório? Uma criança e sua mãe passam na outra calçada, e tudo é tão veloz na máquina de ir e vir, que paro, mas apenas na míngua de um lapso. O tempo passa, o tempo não passa. O relógio, meu pulso, meu suor, minha calça de quinta-feira, um cisco no olho, uma guimba, o poste, muros. Em redor, absolutamente, a cidade, sempre e incansável. Moro no mais tarde, depois das onze. O jantar: requentá-lo; comê-lo. Na TV, um homem frágil explica taxas e gráficos, coisas que não entendo. No silêncio, antes de dormir, sei que todos os amanhãs já se foram e que tudo é tão somente o cumprimento de uma rotina. Desligo a TV e me ap…