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Mostrando postagens de Maio, 2016

DE PASSAGEM

Eu realmente me canso de te ver repetir normas a seguir, normas a quebrar. Para construir ou demolir mundos, sou pouco. Estou de passagem, e o tempo é curto. De camisa azul-claro e calça jeans, não preciso de mais que algum era uma vez e a liberdade de caminhar por aí, sem atentar para o último round entre gregos e troianos. Não leve tão a sério o que pensa. O tempo te dirá o contrário, um jogo infinito de possibilidades, que você, talvez, não queira enxergar. Olha: na janela daquele andar, um vaso que não vai cair. É a vertigem que te deve impulsionar; não o medo de não conseguir controlar o movimento das coisas. E eu só preciso de um drink e de uma verdade que não se pronuncie como um mandamento ou um chamado para uma guerra. Você desaprendeu a pulsação de Down to the Waterline. Você desconsidera abrir as janelas. Deixou uma gramática ofendida nascer entre as nossas palavras.


[Tinha medo. E o tinha como a um tesouro. Cuidava-o, como a uma horta se cuida. Tinha os dedos gastos uns nos o…

cão

as pulgas pululam
dorso dores alma do meu cão
as pulgas se banham no sangue sugado do meu mísero cão
pulgas não fugazes iscas de mares desertos no olhar triste e insólito do meu cão
a guarda fica pra depois meu cão vagueia em passos trôpegos de uma carruagem perdida
meu cão branco é o seu olhar de solidão


│Autor: Oreny Júnior│ ______________________


Oreny Pires de Sousa Júnior é natalense, filho de seu Oreny e dona Zefa. Viveu da infância à adolescência nas ruas e morros da Cidade da Esperança. Nesse bairro conviveu com músicos e poetas. A vida malvada o tangeu do bairro, lançando-o nas estranhas desse país trecheiro. Nesse exílio, necessário de doloroso, catou seus poemas no pedregulho da vida sem o uso de luvas. Alguns foram retirados a fórceps de suas entranhas. Agora, estão aqui, gritando neste livro. [Janilson Carvalho – Professor]

A espera

Até a esperança a gente espera.
Espera-se o sol, espera-se a lua, as estrelas, a rosa se abrir. a raiva sumir, o ônibus passar e o povo subir.
É muita espera. Tem o médico, o exame, o horário do programa, o telefone tocar, o frio passar e o amor chegar.
Mas, um dia, até a morte a gente espera.
Melhor vir de surpresa, nada de espera. Só viver e deixar tudo acontecer.


│Autora: Maria Dona│ ______________________

Maria Dona, desde sempre Doninha, nasceu em Pau dos Ferros (RN), em 1945. Foi aluna interna do Patronato Alfredo Fernandes, na época em que os pais ainda residiam na zona rural, e fez parte da primeira turma do Ginásio 4 de Setembro e do Curso Normal de Pau dos Ferros. Depois, estudou Pedagogia na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN – Mossoró, tendo sido presidente da República Universitária. Trabalhou como coordenadora pedagógica em Mossoró, enquanto servidora da Secretaria Estadual de Educação. Em 1998, quando se aposentou, passou a morar em Natal. É esposa de Durval e mãe de Anna Cecíli…

DENSIDADE

Consistência expressa na palavra liberdade.



Em silêncio, disponho do trânsito                                    em meu corpo:                                      o sangue que, 
                                                    livre,
                                                circula.

Mas, não apenas.
Navegam-me cavalos advindos de tardes em que, longe, ia-me.       Ali, no ar, mar em brisa,       avencas e álamos rumo       ao nome incógnito da mulher.       Ali, no ar, o brando dorso do sol       a derrear-se na face avistada,       e que eu, sem mais,       como quem conjuga simplicidades,       chamava de mundo.
Em silêncio, disponho do trânsito, essa música de perfeita eletricidade, corpo no presente, densidade para além do tédio.
Exerço o meu poder, consistência expressa na palavra liberdade.


│Autor: Webston Moura│ _______________________

AQUÁRIO

No que tem de belo, os aquários: pérolas flutuando.





Em câmera lenta, chega à piscina. Para e retira o roupão branco. O corpo ─ e não um esboço ─ surge: um biquíni passando por trás da pilastra até o outro lado, enquanto seu olhar, em ré, observa (o que?).
Devagar, decidida e delicada, desce até a água chegar à altura da cintura, um pouco mais, um borrão, braçadas leves, corta para o fundo azul, azul, azul, azul, azul.
Seus olhos, melancolia feliz, são, em avelã, o furta-cor na timidez discreta dos castanhos meus.
Em que língua, com a devida musica, cantar-se-ia aquário senão na sua?


│Autor: Webston Moura│ _____________________

A ALGAROBEIRA

Dá-se bem com a rudeza
da terra em que se ergue. Rudeza da pouca água com que vive e não padece. Entre severos, acresce de força sua beleza. Austera, sua imagem; seu fruto, uma vargem doce com que o boi se abastece. Dizem dela: estrangeira que aqui se assentou, como se fora daqui sua nascença de sempre, tal se nota em seu destino o nordestino vigor, o mesmo do lavrador, aquele que conhecemos por um nome mui comum (Antonio, Pedro, Clemente ─ homem de sol e labor).
Algarobeira, seu nome. E é preciso guarda-lo vivo e direto na árvore bem mais que nos dicionários.


│Autor: Webston Moura│ ______________________

PARA QUE FECHES OS OLHOS

Escrevia contos e os guardava. Tinha um sonho recorrente:após dois copos de vinho, dirigia um carro numa estrada deserta e no passado, 1976. No toca-fitas, ouvia: tua presença é uma gota de orvalho que o sol evapora. E a estrada não se acabava; parte por parte, as linhas do meio dividindo a pista, sequência repetida, mas não enfadonha. Lembrava, mas não sabia o porquê de chamar de lembrança a isto: Fechar os olhos. Ouvir as sibilas (descobri-las), como quem, relva sob relva, solo sob solo, desencava o canto, aquele da súmula dos olhares. O vinho, o motor discreto, a noite, ninguém na estrada, viajar, 1976. Escrevia contos. Havia um sobre uma cidade perdida, um lugar mais para a lenda que para a história. Nunca o terminava. Não era a intenção. A travessia, sim, o era. Sempre estar ali com aquela estória, pesquisar em diferentes fontes e conseguir detalhes que pudesse incorporar ao relato. No meio da madrugada, parar e ficar olhando o calhamaço de folhas preenchidas, silêncio. Da janela…

RESTAR ÍNTEGRO

Em seu perfeito estado, um círculo.



Pôr-se ausente a pino, desmundar-se. Habitar a penúria, o zero da cabeça. Silenciar, escutar e retornar à primeira água. Caso um peixe borbulhe sua sentença, deixa-lo ser: seu reflexo desparecerá.
Na pausa, nada inibir. Respirar o vago, o limpo, o livre.
Esvaziar-se.
Restar íntegro e deserto: abrir-se à luz.


│Autor: Webston Moura│ _______________________

Deita-te comigo

Deita-te comigo. É tão longa a noite. Apagaram-se os brilhos do tecto do dia claro, ficou a iridescência nas vidraças dos teus olhos que bebo ou recuso.
A casa respira o sussurrar das águas, se quiseres, ou silencia e abafa todos os gritos da solidão partilhada.
Ao alcance do teu gesto fico, nascente, leito ou deserto. Por ti me farei cascata ondulante ou, como barro, me unirei às reentrâncias absurdas das águas.



.................................. # Poema constante de "Evocação das águas" (Seda Publicações, 2015), com desenhos de Carmo Pólvora.
Lília Tavares (1961)  é psicóloga clínica, há 24 anos a trabalhar na reabilitação de jovens e adultos. Casada e mãe de dois filhos, frestas de luz que a vida lhe deu. Unida à Poesia desde os treze anos, publicou em 1979 Fusão Crepuscular e outros Poemas em edição de autor. Participou, a convite, numa antologia de poetas do Baixo Alentejo, dois anos mais tarde. Natural de Sines, traz consigo o aroma das marés vivas de Setembro. De extremos, ama o aroma …

PALAVRA ABERTA PARA A MANHÃ

Um café e o meu silêncio.



De saudades, entardeci. Minha boca pronuncia terçã, guarda-louça, mormaço e lisonja. Apareço na generosidade da palavra gentileza, na sua cortês melodia de moça e cozinha.
Assina-se brandura às almas que ainda se põem, entre um fagote e um oboé, dissipadas de medos letais no sempre que de comer bolachas, devagar, como as crianças que se perdem de si olhando a rua, a partir de batentes antigos de casas que não existem mais senão em afrescos.
As pedras se limam, mutuamente. Os afetos, igualmente, contra e com. A vida, rio de tardanças, dá as cartilhas.
De Monet, Bain à la Grenouillère, imersão a que me ponho. Demoro-me no que seja alegria e paz. E, da pintura, procuro um neologismo para o que sinto ─ que seria?
De saudades, entardeci, já o disse. E, agora, leve-leve, pronuncio janela,
palavra aberta para a manhã.


│Autor: Webston Moura│ _________________________

ENTRE A HISTÓRIA E O RUMOR

Com seu olhar indestrutível.




Tudo será tarde: agosto, derradeiro olhar. Em desfecho, seguir. Malas prontas, silêncio, vestes sóbrias, um lenço ao bolso, nenhuma palavra.
Pensando, diga ser feriado ou um dia visitado, mas por fora. E se vá, não se aperceba de uma qualquer novidade. Não intente argumentar uma última música, uma lágrima, de soslaio e cativante.
Não pense em mais nada. Esqueça a salada tantas vezes errada, o molho em desalinho, o ponto derrapante, algum abril, uma culpa partilhada, móveis em comum.
Rasgue as cartas, queime-as e deixe o vento saber.
Caso possa, caso queira, encontre um cais e apenas olhe.


│Autor: Webston Moura│ _________________________

ROSÁRIO

Uma pessoa, seu trânsito: conter o infinito no finito.



Sou uma pessoa de carne e osso, e o tempo me atravessa. Eu, ínfimo-um, percorro a história que me faço, aparentemente só.
Moro na presença que me desfruta a fala, o olhar, as manhãs que, por lembrança, ainda são, mas que já se foram.
Sofro impasses e risos. É de lei que assim o seja: oscilar entre oblíquos e saúdes; suportar a asa que sustém o peso de toda a alma que carrego.
Sou de um tempo desistorizado, tempo em que os homens já não andam desarmados de argumentos e cobranças.
Quando meigo e reclinado no leito de um céu, desejo o sweet-kitsch da canção que, entre rosas vermelhas e domadas, derrama coelhos num dia de abril.
Quando crasso, mergulho cavalos em ruivos prados; vou-me para o lado de dentro do véu, onde a palavra ainda é virgem.
E desconfio de que o amanhã revelará apenas a novidade já sabida, a de que o mundo não mudou e isso aconteceu enquanto eu partia de um dia para o outro,
como num rosário.


│Autor: Webston Moura│ _______________________

O ABANDONO

Onde o incerto, também a vida.


A calidez com que o dia se ergue e afia o seu humor por sobre as casas. A nossa forma mesma de recebê-lo, impossibilitados de sermos mais. A vaga lembrança, no meio da tarde, de um momento de devaneio. A consciência e os hiatos que preencherão o corpo. O inventário de infrações e desejos, caderno posto a funcionar sem fim. A pele que se enruga, ao espelho: luz devolvida em desagrado.
Abrir a porta, como quem já sabe, e, a seu pé, um perene tigre reencontrado.
Erguer os braços e despejar os restos de um sono conhecido.
Bocejar (um por um triz): e ar não faz música.
Tomar banho, comer o rápido e sair em áspero.

O abandono.


│Autor: Webston Moura│ _______________________