Postagens

Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Canção de torna-viagem

Uma carta encontrarei Debaixo da minha porta. Ordem da Filha do Rei? Feitiço da Moira Torta?
A carta não abrirei. Talvez me seja fatal. Mas sobre o leito há uma rosa, Há uma rosa e um punhal.
Que fiz de bem ou de mal Pelos caminhos que andei? Qual dos dois, rosa e punhal, É o da Princesa e o do Rei?
Ai, tudo a carta diria, A carta de sob a porta... Se não se houvera sumido Por artes da Moira Torta.


............................. # Poema constante de Canções (Editora Globo, 1994)
│Autor: Mário Quintana│ _______________________

UM AZUL SEM GAIVOTAS

Os oceanos estão mais quentes; os tubarões, mais afoitos; os corais, em acirrado branqueamento. E o distraído praieiro, olhando o mar, sem se aperceber que seu amor é exílio,                                                             sonha.
Amanhã, dia de depois dos depois, haverá uma cratera infinita, fósseis de casais apaixonados, restos de peixes, rastros de águas-vivas. E um seresteiro insólito, à beira do precipício, entoará remotos numa arcaica língua.
Não mais os mares, não mais gaivotas.
Meninas de azul correrão vestidas de vento por sobre os ossos das manhãs possuídas de ausências.
O sol, ancião arquejante, susterá, com brilhos definitivos, os dias de navegações fantasmas. De um cais resiliente, uma flor de pedra jorrará terpenos remanescentes de antigos dias.
Anotadas em um caderno de folhas invencíveis, estas palavras sem escuta que lhes ouça as lágrimas.

.........................................................

│Autor: Webston Moura│ _________________________

ÁQUEA FLUTUAÇÃO CANTANTE

Entre coisas que se tocam, costuras e voos.

Um grão de areia: tomo-o nas mãos. Minúscula vida inerte e muda que carrega o tempo. Posso desfolha-lo, com imaginação e ciência. Acordo seu íntimo e extinto fogo, alma que fora junta de outras amálgama carregada e resoluta, sombra agora repousada sob a luz, dura e frágil matéria que me fala.
Estamos um no outro? Que conversa travamos, misturas de tempo e força, nós, naturezas bravas que a vida adestra?
Dialogamos eu e o grão: um olho, o quartzo; o outro, emoção.
Sou humano, e esta odisseia é demais para ser apenas condição. Olho o grão de areia, que me fita com suas ausências, e disto sei: sou humano.


│Autor: Webston Moura│ _________________________