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Mostrando postagens de Dezembro, 2015

O QUE SEI DE COR

Sou do sertão, mas cresci na cidade. Fui me sabendo por carnaúbas, mas também por Olho Vivo e Faro Fino. Sou a fronteira que atravessou os rios do tempo e que, depois de todos os reveses, deseja apenas paz. E sei que paz não é um apenas.
Não tenho vergonha de ser nostálgico. Não me incomodam os “críticos” (Vestidos de latim ou de molotov, não sabem sentir à altura de nenhuma alma).
Sou do sertão, mas cresci na cidade (Cidade do interior). Lembro-me dos parques de diversão. Nas radiadoras, ouvia-se: “Esta é a última canção que eu faço pra você”. E as mocinhas paqueravam, leves e risonhas. E os rapazes, igualmente vestidos de simplicidade                                                                       e inocência.

(Eu era feliz e não sabia)

Sou de um mundo que morreu, quer dizer, minha alma mais criança o sabe, o sente e o vive, só ela.
E, se tudo for ilusão, quero as mais bonitas, sempre!

Ao meu redor, dizem que progredimos. Mas desconfio da propaganda. Aprendi isso com Olho Vivo e Faro Fino.
O que melhor s…

A MOÇA DE MANNHEIM

Tarde. Acácias pra lá e pra cá. No terreno ao lado patos e galinhas.

O carteiro, de repente, um pequeno envelope. Dentro, um cartão (um recorte urbano, uma moça e seu sorriso). E a mensagem dizia: Não moro no Rio, sou viajante do mundo. Felicidades!
Acostumado a cheirar papéis, tomei o envelope mais o cartão e os cheirei.
Assim, procuramos pelas pessoas, pelas suas trilhas. Ainda animais, embora enternecidos, farejamos.
E ninguém reduza o cheiro dos papéis a alguma coisa numa cadeia de carbono. A moça de Mannheim não merece esse tratamento.



OUTROSSIM - Ao longo do tempo e o que as cervejas empossam. As travessias feitas e outras por chegar. O dia que está nascendo na cidade talvez. As palavras que nunca mais gostaria de ver nos sentidos viciados em que estão empregadas pelos gentios ─ esquecê-las. E, quem sabe, mais tarde há de chover. Olhos fechados, um cais com uma moça de branco acenando um lenço, onde se lê o tempo é uma oferta sem devolução. Elishebha, sua raiz. Beija-me, agora!


│Autor: Webston Moura│ __…

CÁ ENTRE NÓS

Somos vaidades sofridas, sob o olhar de Deus; fundura de sonhos que os dias permitem                     (ou negam).
Insistimos contra a fumaça, o embotamento, os insultos, a incompreensão.
Uns, extrovertidos; outros, caramujos.
E nunca diga conhecer alguém. O outro é sempre um desafio livre-perdido do eu que, de fora, o vê e se abisma.

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│Autor: Webston Moura│
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O HOMEM CALADO DA RUA DISCRETA

Sob a luz da TV, letargia. A casa, ainda mais escassa, recendia a incômodos acumulados. Lá fora, o mundo se multiplicava                                    em entropias.
Desde ontem, o gato não voltou. Seu canto, vazio; sua comida, intacta.
Calado, o homem fritava ovos enquanto continuava a receber estranhos sinais de Honshu. Por ainda mais estranho, sonhava, noite a noite, com o um bosque perto de Oele.
Da sala, soava: Si arrastré por este mundo La verguenza de haber sido El dolor de ya no ser Bajo el ala del sombrero. Cuántas veces, embozada, Una lágrima asomada yo no pude contener*.
São 17h. E há uma brisa suave.

................................. NOTA: * Trecho de "Cuesta abajo", mais rconhecida na voz de Carlos Gardel, mas aqui cantada por Pasión Vega: https://youtu.be/


.................................................. │Autor: Webston Moura│ _________________________

MENSAGEM

Por minha mão, o movimento: friccionar o fósforo. E ver sua breve explosão, um átimo de vida, o qual fisgo e, em seguida, perco.
Resta-me o resíduo.
E do mais que a vida oferece ─ nascer, forçar, fender, abrir-se à luz, amar e execrar, descobrir e cegar ─, o que assim não é senão fósforo estalado contra o ar, prodígio e trivial juntos?
Vão-se os dias e os calendários: o espelho, áspera delicadeza, informa.
Com as mãos, seguro a areia, que foge; com os olhos, a luz, que me entontece; com os objetos, todos os passados, que ninguém lembrará. E os significados de uma vida assim se bastam.
(Numa foto, um pé de zimbro e um lugar onde nunca estive).

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│Autor: Webston Moura
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IDÍLIO

No jardim ─ ar níveo, aquoso e leve ─, depois do alpendre de madeira, onde floresciam lembranças, amabilidades tranquilas, vergéis cor de lua, havia-se consigo e só (seu olhar e seu pulso) no sentir dos enquantos: amava o próprio amor, os olhos de Annie Lennox.
Relia a carta escrita à tarde; ressentia, suave, o papel, sua cor e textura, a mágica que lhe definia para aquela função: palavras que eram todas adição.
(Fecha os olhos: nuances te pronunciam ─ raridade íntegra ─, como o que vês assim no doce escuro que se adensa por teu corpo)
Sabia-se consigo e só (seu cheiro por si percebido) e toda a sua pessoa era idílio.

......................... Poema escrito sob inspiração de, entre outras, "Why", música de Annie Lenox, a qual você escuta aqui: https://youtu.be/.

│Autor: Webston Moura│

EU QUERIA FUGIR PARA ANTJE TRAUE

É fim de ano: e o zodíaco           aponta o indistinto,   a caminhada à margem,       oscilações nos mapas,        malmequeres bravos.
Fechar-se-á um ciclo e os dias serão tão inéditos                            quanto não: amanhã, como sói, estaremos cansados e sumários em nossas rotinas, depois de tudo.
Ainda assim, que nos custa reabrir os cadernos e dar sinal a Pegasus e a Cygnus?
Sim, sou otimista, mas estou cansado: é muita fala no meio da rua. Eu queria fugir para Antje Traue.

│Autor: Webston Moura│

ISABELLE

Num talvez de um instante, um peixe sobre um incerto, calhaus na margem de um rio, ocres em grãos de quartzo, ariscos apriscos brumosos, outonos engenhados.
Giro do tempo, teus olhos, brisa, borboleta, mãos que, movendo o ar, orvalham-se.
Cabelos, ondas, doiros, lábios que, movendo-se, permitem-se desenhar flautas (seus sons).

Foto.

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│Autor: Webston Moura│
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UM HOMEM NO ESCURO

Plano aberto: pontos de luz pela cidade.
Um beco. Um homem caminha só.
Não se sabe seu nome ou se desposou uma Evelyn numa quarta-feira de verão. Sabe-se que ele segue, passos apressados, sumindo-se com seu corpo e seus sonhos, se ainda os tem, se é que algum dia os teve.
Solidão.
Uma folha de jornal, presa à ferragem de uma usina, estampa o que já é ontem.
E é natal.

│Autor: Webston Moura│

ALDEBARÃ VISTA PELA PRIMEIRA VEZ [Webston Moura]

Imagem
Sabem-me pássaros no trânsito desta varanda. Sei-lhes a travessia que, mesmo em seu todo secreta, está-me paraíso de signos. E o denso é a emoção que sinto: rio suave ante um tanger de cabras nalgum entardecer de uma aldeia cujo nome supõe raras gemas e ócios de um tempo sem relógios.
Pronunciam-me âmbar de entalhe feminino, tal ao que (voz a mais acima) diria afável: Paco de Lucía em todo frescor.
Não quero o mundo, este do perde-ganha. Quero o trigo no estalo mais certo sob o sol.
E direi vezes tantas meus olhos fechados, que minha boca, um sim a pico, agora sorri.


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Havia sempre o velho, a partir das cinco da tarde, à calçada, cadeira posta, cabelos encanecidos, olhar de sem-espanto, como a contar apenas a passagem daquela hora em que seu pouco de senhorio se assenhorava de apenas estar.
Até o dia de nunca mais, onde se passou a contar o tempo provido somente do cachorro que antes havia em redor do velho, silente bicho de olhos agora ainda mais aguados (ou seriam secos?)
Na pequena sala, a imagem do Sagrado Coração de Jesus e um encontro de pequenos sons vindos de onde não mais havia um velho, mas só seu nome (que era mínimo como a vila que ajudara a construir): Zé.

│Autor: Webston Moura│

MAIS ALÉM DO ALTAR DOS CORDEIROS

Não nascemos para o massacre.
Não é aí que reside a centelha forte. O livro dos livros destes senhores que erguem estas torres                                 (pedra imensa alteada) não pode ser lido sob esse (signo) deserto. O chão antigo dos dias sob o sol, mais além do altar dos cordeiros e dos primogênitos é habitação das heras e dos sândalos, do trigo e da erva-sem-nome ─ essa a que o homem dará cultivo: com elas ervará os ares odorados do sangue incendiado que sobe ao deus                        (decrépito signo deserto) dos senhores que erguem torres contra os céus das manhãs.


................................. # Poema constante de "Aridez lavrada pela carne disto" (Confraria do Vento, 2015)
│Autor: Dércio Braúna│

NAU, SINAL E CHIAROSCURO

Percorro os escuros da língua em que me falo, articulações que consigo, embora fugidias                                    me sejam: pérolas de ar.
Escondo-me da língua solta,                  mundo-sem-devir,                 soslaio indesejado, queda.
Percorro o corpo da mulher que há de sempre, e bemvindamente, apagar-me dentro da sua gravidade.
(De olhos fechados, pronunciedelícia!)
Palavra: aparecer-desaparecer; o pé descrevendo um arco na areia; risco rente ahermoso, com
I do not know por sempre.


│Autor: Webston Moura│

A ILHA

A ilha oportuniza águas. A força vulcaniza e destroça terras abaladas.
   No recomeço de pássaros    e parasitas. Depósito de ventos.
        A doença trazida em barcos        no surdo rumor de motores        desligados. Floresce a ilha        em terras cobiçadas:
          homens peixes insetos           pássaros disputam convivências.
Toda ilha comporta ninhos entrelaçados.


................................. # Poema constante de "O livro infindável e outros poemas" (Sarau das Letras, 2015)
# Pedro Du Bois consta de outros posts deste blog (vide arquivo na barra lateral) e mantém um blog próprio [http://pedrodubois.blogspot.com.br/].