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Mostrando postagens de Novembro, 2015

Litorais

Coisas feitas de água: Os peixes, as conchas, o sal, A sede, o suor e o cais... E além das águas, há mais: A lua que brilha nas vagas E o mar sem par e sem paz.
Coisas feitas de vento: O Braço da hélice e a duna, Nuvem, ondas, coqueirais, Folhas, velas, pardais; Depois, os voos desfeitos, As coisas de nunca mais.


......................... # Poema constante de Canto Aceso (Expressão Gráfica e Editora, 2015)
│Autor: Carlos Nóbrega│

UM DIA SÓ

Um dia só, desabitado: remoído e refeito o usual,
améns ao infinito.
Ver os cabelos adentrar o grisalho; percorrer a insânia do símile ao que, furta-cor, não chega a ser mais que um órfão.
A cal sempre nula na cor branca, que é sua natureza inalterável, nudez exposta à luz,
a tudo percorre.
E nada há que, explodindo, substancie-se em beijo, tampouco arranhe uma leiva.


│Autor: Webston Moura│

Eco

Vagas são as promessas e ao longe, muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor: sonâmbulas cidades, ruas íngremes, passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino e era talvez essa a voz da própria lua. Aí ficou gravada a minha sede. Aí deixei que o fogo me beijasse pela primeira vez.
Agora tenho as mãos vazias, regresso e sei que nada me pertence ─ nenhum gesto do céu ou da terra. Apenas o rumor de breves sombras e um nome já incerto que por mágoa não consigo esquecer.


│Autor: Fernando Pinto do Amaral│

ATÉ O JÚBILO DESFAZER-SE EM SUSPIROS

Seus olhos maus me ensombram e seus lábios são sábados sem fim.
O dia certo?
Nem me lembro.          (Chove,
           lá fora,
           lusco-fusco,            final de tarde).
Como uma oscilação, seu corpo reveste o quarto ao tempo em que sua respiração desafoga todos os sentidos-nãos e os alecrina de alvíssaras.
Um ao outro, limítrofes, ínsulas não mais, ou nem tanto, desmontamos o talvez até o júbilo desfazer-se em suspiros.


│Autor: Webston Moura│

O PREÇO DA PASSAGEM

Em silêncio, dependurados no metal frio de gastas engrenagens, nomes guardados no anonimato da indigência e do abandono, bovinas figuras que o Estado e a iniciativa privada pisam. Não estão a passear, passageiros que o são da rotina disciplinada a ferro, indo ou voltando do trabalho.
Cansaços, medos, angústias. Assaltos, assédios, abusos.
Pela janela, veem a cidade passar, toda ela sedutora e impossível, atraente e horrorosa, erguida contra qualquer sonho que repouse nalgum crepúsculo acalentador de trovas e poemas.
A um canto mais ao fundo alguém dorme quase esquecido de onde deve saltar: despercebe o trajeto;
                                                    apaga a vida.

│Autor: Webston Moura│
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ENQUANTO O SISAL AMADURECE O TEMPO

Eram todos livres, mas apenas para gritar.
(E ninguém lhes escutava).
Num grande pátio feito para agonias, o vazio de saber-se só com seu grito e o nada-mais abundante sob a bandeira erguida a representar esta liberdade, mas dizendo-se voz de outra, aquela nunca atingida.
E, em mínimos intervalos, amavam aos seus amores ou o que deles restou: a ainda, se possível, negra mulher, que negras eram todas sob aquele ar; a luz do candeeiro silhuetando o coqueiro; a lua e suas metamorfoses; um cão dormindo;                      o sisal.

Eram todos livres numa terra livre e incompreensível. E suas línguas eram ditas dissolução.


│Autor: Webston Moura│ _________________________________