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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

CENA DOMÉSTICA

Na sala de jantar, na tarde mansa, Está toda a família reunida; No mister de bordar, em doce lida, Minha mulher do seu labor descansa.
As linhas do bordado quem destrança É a nossa menina mais crescida; As outras duas, uma à outra lança, Rente ao chão, uma bola colorida.
Numa poltrona o nosso filho lê; Histórias em quadrinhos, já se vê, Pelas quais o seu gosto se revela.
Eu escrevo da mesa à cabeceira; Meu curió “Barão”, posto à janela, Completa a cena e canta a tarde inteira...


│Autor: JOSÉ GERALDO PIRES DE MELLO│
___________ JOSÉ GERALDO PIRES DE MELLO – Nasceu em Niterói em 1924 e faleceu em Brasília em 2010. Estreou em livro com seu De Braços Dados (coroa de sonetos), em 1975, seguindo-se outros livros de sonetos: Chama de Amor (1978), O Catavento Amarelo (1978) e A Mensagem do Arco-íris (1981), todos eles publicados em Brasília, onde residiu por mais de quarenta anos. _____________

ÍNDICE

O homem é a matéria do meu canto, qualquer que seja a cor do que ele sente. E não importa o motivo do seu pranto, é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é o meu o seu espanto do mundo e desta hora incongruentes. Na trincheira do Verbo me levanto contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo de quanto sei cantar, e o canto é tudo que pode me explicar porque estou vivo.
Às vezes sou ateu, noutras sou crente, em outras sou rebelde, em algumas mudo: ― sou homem, e canto o homem no presente.

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VIRIATO (SANTOS) GASPAR – Nasceu em São Luís (MA), em 07/03/1952. Jornalista desde 1970, reside em Brasília desde agosto de 1978. Funcionário aposentado do Poder Judiciário. Participação em mais de uma dúzia de antologias poéticas no Maranhão e em Brasília. Vencedor de muitos prêmios literários tanto em sua terra natal quanto no Distrito Federal. Bibliografia: Manhã Portátil ― poesia, Gráfica SIOGE, Plano Editorial “Gonçalves Dias”, São Luís-MA, 1984; Onipresença ― …

AMOR

Amor é, não possuí-lo: amor, vivê-lo. Possuí-lo é desvendá-lo. E amor ― verdade, beleza, poesia,― sarça ardente, é refratário a toda matemática.
Amor é sol que não se vê mas queima. Ave, não canta, mas lhe o canto ouvimos, ― mas de um outro entender, que só de ouvidos da alma é ouvir cantigas represadas.
Sol e ave. Mas, ave, é um sol que brilha. Queimar-se dele. Por suprema graça, ver-lhe do espectro as invisíveis cores.
Jamais situá-lo, em tosca astronomia. Pesquisá-lo é destruí-lo. Amor, portanto: queimar-se, e só, sem mais filosofia.

,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, # Constante de Sonetos de bolso: antologia poética (Thesaurus, 2013)
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Anderson Braga Horta – Nasceu em Carangola, MG, em 17/11/1934. Radicado em Brasília desde 1960. É poeta, contista, ensaísta e tradutor. Poesia: Altiplano e Outros Poemas, Marvário, Incomunicação, Exercícios de Homem, Cronoscópio, O Cordeiro e a Nuvem e O Pássaro no Aquário, publicados entre 1971 e 2000; Fragmentos da Paixão: Poemas Reunidos, Pulso e…

ANOTAÇÃO ANTIGA

quando a noite com seu eterno e sutil silêncio descer repousarei sob a consciência
breve
meus olhos irão se desvanecer, breve em pálpebras inertes... ― a minha mente vagará em outras dimensões
disperso
ficará anotado em meu diário: ― meu dia não foi em vão, amanhã serei outro tempo



.......................... # Poema constante de AS CORES DO TEMPO (Calibán, 2007)
│Majela Colares│ ____________________

DOIS POEMAS DE DÉRCIO BRAÚNA

PEQUENOS DEUSES

Repara na tarde que te guarda (na vida que te escapa, cada polegada por segundo): o que nela não é senão essa confusa distribuição de seda e péssimo?[18]
Vês aquelas crianças: contra a púrpura da tarde, sobre suas velhas bicicletas (como pequenos deuses em aparição), não dirias que todo futuro será fabuloso?
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O CREPÚSCULO POR SOBRE AS COISAS

Masas nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina,[19]até mesmo essas futuras bestas que, sobre suas idílicas bicicletas, não imaginam (poderiam?) a esplêndida atrocidade que suas pequeninas mãos guardam. ―
Eis o milagre sumário das coisas.

______ NOTAS (Conforme enumeradas no próprio livro, Metal sem Húmus): 18. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Claro enigma – “Contemplação no banco” (Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 38). 19. MILAN KUNDERA, A insustentável leveza do ser (São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 10).

# Poemas constantes de Metal sem Húmus (7Letras)
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VOLTAR AO SOPRO

“Tudo isto para brilhar um instante,
apenas, para ser lançado ao vento,
— por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade.” - Cecília Meireles, em “Primavera”


Nada que não seja isto: diante dos girassóis, encher-me de amarelos, com o horizonte ao fundo, o azul em que dança
a imagem de um pássaro                                     que,                     por longe, não diviso.
Nada que não seja isto: abrir o livro da tarde (em verdade, abrir-me), para receber a luz que do pássaro aos girassóis a tudo repleta e aviva.
Nada que não seja estar com estas inflorescências. Longe de toda insalubridade, poder voltar ao sopro.
│Autor: Webston Moura│

OS DIAMANTES DE SERRA LEOA

suas arestas são gumes: não de cortar epiderme, mão nua; são gumes que cortam antes           (no haver entre a mão e a pedra), cortam no instante estrito           (à guisa do feitio de um cão            lançando-se à espoleta) em que o olho se desaba sobre a esquálida arquitetura dos meninos mineiros,          seus apanhadores                    (que trazem a infância          tão perdida ―                     funda ―          quanto a conta dos mortos          ficados sob terra          gritando às oiças dos vivos).

.................... # Constante de A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005)
│Autor: Dércio Braúna│ ____________________________

O santuário

Entro no teu corpo branco santuário de cal e camélia o porto que abriga a nau insensata e sombra de espiga no chão do verão. No teu corpo encontro a âncora da vida achada e perdida no Mar Oceano o cheiro de estrume guardado no estábulo o longo sol pálido que nos ilumina como um candelabro que jamais se apaga no final da festa de arquejo e desejo quando só nos resta a sobra das almas
saliva e sobejo na escuridão.

................................. # Constante de Cem poemas de amor (Escrituras Editora, 2004).
│Autor: Lêdo Ivo│ _______________________

A BARCA DAS SONHAÇÕES

I.
Há de ser mais bonito o mar que nunca vi ― essa pátria que é a minha!: nunca pude mesmo ir-me destas singelezas (espoletas do ínfimo, diria um fazedor de amanhecer).
Eu, neste tempo presente, vivo é porque anda esta mão minha por desassentar a crueza da luz sobre a sofrência em que vamos uns irmãos com os outros e a mudá-la em cor de tingir poesia.
Mesmo pegado do pouco delírio que lhe vou a dar, meu verbo navega (pobrezito na barca sua em que vai) para além da tristência de agora-aqui.

II.
É-me um estranho solo este dos homens desconstrutores das sonhações ― desaceito a veemência de suas arcarias; bebo-me nas coisas por outra ordem.

................................... # Constante de A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005)
│Autor: Dércio Braúna│ _____________________________

Anotação em um livro de ensaios

lendo um livro de ensaios encontro a seguinte anotação:
Iolanda M. Amado 16.07.1984 – 8 horas e 15 minutos tempo com neblina forte, mas no rádio estão falando que vai ser um dia de calor
entre os ensaios do poeta, como as impressões de uma abelha sobre os veios de uma pétala, a caligrafia da moça que ouve rádio
qual seria a razão de tal comentário? por que tanta precisão? seria a expectativa de um passeio pela cidade? seria para apenas matar o tempo? ou será que a moça, não encontrando confidente ou diário, apenas grafou, por motivo de mistério, instantes sem inspiração dentro do livro de ensaios?


.................................. # Constante de Música possível (COSACNAIFY, 2006) - clique (AQUI)
│Autor: Fabiano Calixto│ ________________________

Sei de uma ilha de ventos

Sei de uma ilha de ventos onde os pássaros azuis da solidão fazem festins no oceano das águas velozes. Fiquei na orla branca das ondas, noveladas como búzios deslumbrados. Estendida entre brumas preciso desse silêncio, das asas abertas do afastamento de luas desveladas.



.................. # Poema constante de Parto com os Ventos (Kreamus, 2013)

Lília Tavares (1961)  é psicóloga clínica, há 24 anos a trabalhar na reabilitação de jovens e adultos. Casada e mãe de dois filhos, frestas de luz que a vida lhe deu. Unida à Poesia desde os treze anos, publicou em 1979 Fusão Crepuscular e outros Poemas em edição de autor. Participou, a convite, numa antologia de poetas do Baixo Alentejo, dois anos mais tarde. Natural de Sines, traz consigo o aroma das marés vivas de Setembro. De extremos, ama o aroma das terras, o sol, as alfazemas em Junho. Criadora e co-autora da Página "Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen", Lília é co-autora da Página "Poesia com Artes" e, neste âmbito, realiza…

Folha de Papel

Afundo-me numa folha de papel. O meu corpo submergido bebe a seiva da árvore.
Renasço à flor da pele. Os meus olhos giram o submundo da superfície.
Com o odor atenta-me o vento do fim das chuvas. O sol renasce um cravo que liberta...


.................................. # Poema constante de Rio de Doze Águas (Coisas de Ler Editora, 2012)

___________________________ Cláudio Cordeiro - Nascido em Coimbra, natural de Mortágua, poeta e estudante universitário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, é autor de três livros, "Lágrimas da Alma" (Corpos Editora, 2010), "Olhos de Terra" (Corpos Editora, 2011) e "Um Tudo Nada Água" (Lua de Marfim,2011). ____________________________

CASA

A antiga casa que os ventos rodearam Com suas noites de espanto e de prodígio Onde os anjos vermelhos batalharam
A antiga casa de inverno em cujos vidros Os ramos nus e negros se cruzaram Sob o íman dum céu lunar e frio
Permanece presente como um reino E atravessa meus sonhos como um rio



......................... # Poema constante de GEOGRAFIA (Caminho, 2004)
│Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen│
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URGENTEMENTE

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.





....................... # Poema constante de AS PALAVRAS INTERDITAS-ATÉ AMANHÃ (Assírio e Alvim, 2012) * Postado originalmente na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen - clique (AQUI)
│Autor: Eugénio de Andrade│
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MENINA

luas
praias de querer
ao longo dos meus braços
afastados pelo coral das rochas
duas
*
uma menina chupando
um rebuçado
descalça
de ter sol nos olhos
*
alguém chora o sentir
do mar
nos flancos das corças
e dos barcos
*
duas
as vezes que conto
pelos dedos
- sol e água
espelhos verticais
no sentir das margens
nevoeiro de noites
nuas




............................ * Poema constante de ESPELHO INICIAL (1960) e POESIA REUNIDA (D. Quixote, 2009) * Post originalmente publicado na página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen - clique (AQUI).
│Autor:  Maria Teresa Horta│
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