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Mostrando postagens de Setembro, 2014

As Mãos

Sabe o que está escrito na sua mão? Orides Fontela responde: “Leio / minha mão / único livro”.
Os poetas dentro do processo criativo contextualizam “as mãos” como desafio, desenvolvendo um olhar afetuoso e captando a essência atemporal da palavra, com a finalidade de desvendar esse poder absoluto que as mãos exercem sobre nós. Nas palavras de Jorge Tufic, “Para / Fernando Pessoa / os símbolos / não são você / nem ninguém. / São a noite interna / a dormir acordado. / Símbolos. / As mãos, por exemplo: / Quem são elas?”
As mãos constituem a individualidade no sentido da existência e, ao as vivenciarmos, encontramos os gestos declarados: mãos que guardam o tempo, mãos frias e quentes, mãos estendidas e recolhidas, mãos que arremessame acenam, mãos que ajudam, mãos para trás negando o contato e renegando o gesto, mãos carinhosas e amigas, as mãos do carrasco, mãos lidas pelas ciganas, mãos calejadas, mãos trêmulas e a Mão Única, de Orides Fontela: “é proibido / voltar atrás / e chorar.”
As mã…

ENQUANTO OLHAVA AS MARGARIDAS

ressentia a meninez dos inícios imberbes,
                          mas o tempo já lhe havia passado.
seu rosto, um mapa antigo, refolhos; seus olhos, o  quão podiam, luz ensombrada; suas mãos, cronologia de léguas.
domingo, estava só no beiral sentindo refluências, e o mundo, tarefa indomável, lhe doía como uma chaga sempre aberta e disposta.
á sua frente, ao chão, sem acídia, a natureza de infatigáveis margaridas, suas vozes brancas.
consigo e contrito, embora leve, descosturava ali as palavras desmesuradas                                                        estômago adentro.
era homem e era só, assim de se considerar somenos.


│Autor: Webston Moura│

______________________ NOTA: 1.Os versos em negrito e itálico constam de meu poema "Beiral" (Encontros Imprecisos: insinuações poéticas; Imprece, 2006)
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a vida passa

chorar em etrusco ou na varanda, porque em mim já não caibo.
é fim de tarde: na rua, passam, lentamente, umas senhoras, suas dores (quase) amansadas,                    dores que se convertem em diabetes                                                             e hipertensão e o mais que os seus silêncios de mães não pronunciam senão por olhares cabisbaixos.
levam seus rosários; vão à missa. eu as vejo com meus olhos já envelhecendo; eu, que inda agora era jovem e supunha mudar o mundo, quando sequer arranhei o muro, exceto por umas insinuações poéticas.
(no alto céu, a noite a cair num cinza-azulado em que o íntimo extasia a estrela e o pudor.)
noutro tempo, longe, plangem violões uma serenata: escuto um nome ― maria ―, talvez aquela que, no futuro, reclinada sobre o corpo do filho, nem mais se lembre de flor e vênus, posto haver-lhe apenas sangue nas mãos,                                                    sal não-bendito e vermelho, todo forte.
adentro a casa em que moro, vou à cozinha e sorvo uma dose de…

INSANO

Retira pequenas felpas da toalha sobre o corpo seco, restos de tecido,
água destecida no esgarçamento
da toalha; partes da pele no esfregar
do pano; anos passados: corpos dilacerados
sobre trilhos, entre trilhos. Nas explosões
sobram partes, não felpas, corpos em mortalhas
desproporcionadas na tragédia; a loucura
                                        - sim, outro dia perdido -
esfrega no corpo a raiva percorrida; a toalha
sobra no corpo restos de tecido; destecido
e fragmentado na lembrança do inteiro corpo.


│Autor: Pedro Du Bois│ ..................................................... # Leia também: - ENTARDECER (Pedro Du Bois) - Roteiro para apartar escuridões (Whisner Fraga) - O CORPO PARADOXAL (Dércio Braúna) - Sobre águas (Pedro Du Bois) - Reinícios (Pedro Du Bois) - Perguntas sobre o amor (Tânia Du Bois) - O Tempo de Iluminadas Palavras (Tânia Du Bois) - Palavras (mal) ditas (Tânia Du Bois)
________________ * Pedro Du Bois [Passo Fundo-RS, Brasil] - Poeta, contista, autor de Iguais (poemas), 

O CORPO PARADOXAL

A cidade nova traz um aroma de sol-de-suor, dos operários que lhe atravessam incansáveis, da grama pelos quintais sem verdor.
Tomada de uma outra fauna (bichos que se movem na ferida do pó vermelho), a cidade pulveriza meu pensamento;
detona-se-me!;
constrói-se num corpo paradoxal sobre a ossatura do pensador ― pois que já ele anunciara este grandiloqüente funeral que adoeceu o domingo das crianças no parque.



Nova Jaguaribara, outubro/2001



│Autor: Dércio Braúna│ .......................................................... # Poema constante de O Pensador do Jardim dos Ossos; Edição do Autor, 2005.

______________ * Dércio Braúna é poeta, contista, historiador; autor de O pensador do jardim dos ossosA selvagem língua do coração das coisasMetal sem húmusComo um cão que sonha a noite sóUma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto e Nyumba-Kaya: Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana. ___________________________

Roteiro para apartar escuridões

Temperar a fervura da cintilância O desabafo das miríades de ló Assustar o espasmo do riso A reentrância das bochechas E a disciplina da descoberta Torturar a áspera essência do olfato                E as nênias para solidão Jurar de um sobressalto só                (Um torpor de constelações)




│Autor: Whisner Fraga│ ________________________ # Poema constante de O livro da carne (7Letras, 2010)
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Whisner Fraga é escritor, autor de, entre outros livros, Abismo poente (Ed. Ficções, 2009) _______________

CORPO, MATÉRIA INSISTENTE

Nada sou fora do meu corpo. Não existo alhures: cá estou nesta geografia que se vai no tempo                                                   e sente enquanto vive e suporta.
Quando digo “coração”, sei que lhe cabe a Alpinia Purpurata e o Blueberry. Mas, sem miocárdio, o músculo em si, nenhuma massa que se diga mundo                  (o ser que por mim passeia,                             denso corpo que sou) existiria.
Careço, não por capricho, de água, arroz e teto (o tanto quanto de fala,             escuta e carinho). Mais que isso:            careço, com este eu-corpo,            existir sem medo e andar livre            por livres ruas, vento a me lamber a pele.
Por condição, corpo acirrado, matéria organizada em sistemas e aparelhos, componho-me insistência de vida que se entende com estrelas e paredes ― não sem alguma luta.



│Autor: Webston Moura│ _______________________

Agreste

Caberia nestas palavras uma alegria de alguma mulher, uma Maria, seu rosto em rosa, apesar da luta, seus sonhos todos, uma outra história de um outro dia (domingo, talvez), junção de luzes na amena manhã.
Mas, não! Aí está ela, esta que se vê de vestido amarrotado, gesto enorme, corpo dobrado sobre o corpo do filho, estatística que sangra em plena rua e ocupa um nome rasgado a coices, explosão da vida em seu negativo.
É agreste olhar o que há e não há agreste suficiente que encarne uma palavra pra dizer disto.






│Autor: Webston Moura│ ________________________

ENTARDECER

Presente ao cair da tarde                     noite (o pássaro
                              se recolhe
                              em gritos
                              de medo)

              onde me apresento
              em norte (o desnorteado
                             pássaro aninhado)

         e não me aguardo
         no encontro desigual
         entre luz e sombra

(ao pássaro cabe
 recuar e prender
 em galhos
              o ninho).


│Autor: Pedro Du Bois │

# Leia também:
ESCREVER -ANSIEDADE -CEDER -Nyumba-Kaya – Mia Couto e a delicada escrevência da nação moçambicana
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